6 A ABERTURA DOS SETE SELOS (Araceli)

Profecias do apocalipse Araceli Melo

 

Este capítulo apresenta a continuação da visão dos dois últimos. No capítulo anterior vimos o Cordeiro tomar o livro selado da mão de Deus sob uma aclamação sem precedente do universo; e neste vê-Lo-emos abrir um por um os selos.


Fascina-nos a maneira notável como Deus escreveu o livro selado. Não notamos palavras nele escritas. Sua confecção é no estilo de cenas vivas e animadas. Eis uma maneira gloriosa de Deus escrever a Seus filhos, para que eles somente entendam e seus inimigos ignorem.


Ao serem abertos os selos, ouvem-se vozes, deparam-se personagens cavalgando animais de vários pelos ou cores e empunhando instrumentos diversos, mortandade, astros escurecendo, astros caindo, a natureza cambaleando como um ébrio, montes e ilhas desaparecendo e os próprios homens, grandes e pequenos apavorados diante da realidade da intervenção de Deus e Seu Filho nos negócios do mundo. Um livro verdadeiramente maravilhoso e fascinante.


A sequência profética-simbólica dos sete selos relaciona-se com a história missionária da igreja cristã, com os primeiros sinais anunciando o segundo advento de Cristo e o próprio aparecimento do Senhor Jesus em glória e terrível majestade.


O PRIMEIRO SÊLO


VERSOS 1-2 — “E, havendo o Cordeiro aberto um dos selos, olhei, e ouvi um dos quatro animais, que dizia como em voz de trovão: Vem, e vê. E olhei, e eis um cavalo branco: e o que estava assentado sobre ele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e saiu vitorioso e para vencer”.


A VOZ DA PRIMEIRA CRIATURA VIVENTE


À abertura do primeiro selo, uma das criaturas viventes, com terrível voz de trovão, convida o profeta para ver de perto cenas que estavam ocultas e que já não eram mais mistério. E, ansioso por conhecer o conteúdo do livro, João atende ao convite. E a nós, que agora estamos apreciando a remoção dos selos, é estendido o mesmo convite para atentarmos bem e entendermos as cenas.

 

UM CAVALO BRANCO


Nos dias da inspiração do Apocalipse, o cavalo era simbólico da força e o meio mais rápido de comunicação.1) Sua força combinada com sua rapidez simbolizava aquela forma de vitalidade e poder que sustém, opera e conduz avante, a despeito dos obstáculos.


Nos antigos exércitos a cavalaria era a arma principal de guerra e a mais temível de todas, tipificando a força e a coragem no conflito.


As Escrituras Sagradas dão importância capital ao cavalo como emblema representativo daqueles que realizam a obra de evangelização do mundo, isto é, a igreja de Deus.2) Assim, os quatro cavalos e suas diferentes cores, como apresentados nos quatro primeiros selos, representam as quatro primeiras fases da igreja cristã em sua força e caráter como entidade religiosa evangelizadora do mundo.


Um cavalo branco é o primeiro da série, a aparecer. A cor branca naqueles dias, era emblema de vitória e triunfo entre os romanos. Nas comemorações triunfais, o general honrado e seu estado maior eram vestidos de branco e conduzidos em carros tirados por cavalos exclusivamente brancos. A mesma figura é aplicada na profecia que alude à segunda vinda triunfal de Cristo, que O apresenta vindo à terra vestido de branco e cavalgando um cavalo branco, seguido de Seus anjos também vestidos de branco e em cavalos brancos.3)


Sem dúvida alguma, o primeiro cavalo de cor branca é uma vívida figura dos triunfos da igreja apostólica em sua campanha evangelizadora do império romano, desde o ano 34 ao ano 100 A. D. A cor do cavalo é imperativa da pureza da fé e da mensagem naqueles começos da igreja cristã. Os primitivos cristãos eram em geral puros no viver cristão e na anunciação do evangelho sem mescla de erros e superstições. 


Na vida e no trabalho do Senhor estavam em plena harmonia com a incomparável cor. A despeito dos esforços do inimigo de todo o bem em perverter a fé e manchar a igreja, foi ele sempre repelido, desbaratado e desmascarado. Os apóstolos mantiveram a igreja na sua altura devida, isenta de contaminação doutrinária e dos pecados do século. Valorosos ministros do evangelho foram eles no desempenho da gloriosa comissão de evangelizar o mundo e guardar a igreja de Deus de sua maldade.


O INVISÍVEL GINETE


O Ginete que cavalgava o cavalo branco era simbólico de Cristo. Somente Ele é o guia de Sua igreja. Jamais as Escrituras Sagradas indicaram outro Chefe de Seu povo além dele mesmo. Ele é designado como cabeça diretriz da igreja4) e prometeu estar com ela até ao fim para guiá-la e instrui-la.5) Por meio de Seu Espírito está sempre presente com Sua igreja, inspirando-a em seu nobre trabalho.1)


A igreja na era apostólica foi pura na doutrina e na vida cristã, porque deixou Cristo dirigir os seus destinos. Veremos com tristeza, porém, na abertura dos selos seguintes, que os homens destronaram Cristo da diretriz de Sua igreja, e a corromperam desastrosamente.


O arco que o cavaleiro trazia, nos dias antigos era uma arma de ataque e conquista no exército, um instrumento de vitória.2) Tremendas cargas de cavalaria e de flechas caracterizavam em geral as guerras daquelas épocas longínquas. O divino Cavaleiro do primeiro selo, intrépido soldado na maior batalha dos séculos, foi quem guiou as cargas da igreja do primeiro século ou apostólica em suas inúmeras conquistas de almas no império dos Césares. 


Dele rezava a profecia então já milenária: “Cinge a Tua espada à coxa, ó Valente, com a Tua glória e Tua majestade. E neste Teu esplendor cavalga prosperamente, pela causa da verdade, da mansidão e da justiça; e a Tua destra te ensinará coisas terríveis. As Tuas frechas são agudas no coração dos inimigos do Rei, e por elas os povos caíram debaixo de Ti”.3) Maravilhoso simbolismo das triunfantes vitórias evangelizadoras da igreja, sob a liderança do Glorioso Ginete apostólico. E a igreja triunfou no primeiro século.


Ao sair para a peleja recebe o Cavaleiro uma coroa. Enquanto naqueles tempos de outrora os vencedores deste mundo recebiam a coroa de louros após regressarem vitoriosos,4) a Cristo, o cavaleiro do primeiro selo, é concedida a coroa, antecipadamente, como evidência segura da vitória na Sua nobilíssima e nova empresa de conquista. Tal foi a triunfal arrancada da igreja cristã com Cristo como seu Líder. Graças a Ele como seu guia, ela foi vitoriosa em viver, em proclamar a justiça do evangelho da divina graça e em enfrentar os muitos e tremendos sistemas de erros contra os quais teve de contender.


"E SAIU VITORIOSO E PARA VENCER"


Duas vitórias são aqui atribuídas a Cristo. Uma já conquistada e outra por conquistar. Ele fez jus aos louros da primeira vitória por ter triunfado sobre os potentados das trevas e os homens seus aliados; sobre a morte e a sepultura; sobre toda a frente de batalha até regressar ao céu com a vitória total sobre todas as hostes de Seus inimigos. 


Cristo venceu sem canhões, sem metralhas, sem bombas atômicas. Venceu sob o estandarte do amor com que amou mesmo os Seus adversários,5) derramando Seu precioso sangue pelo bem do gênero humano. Foi assim que Cristo triunfou em Sua anterior e espetacular vitória sobre as potências das trevas, sendo capacitado para sair “vitorioso e para vencer”, para conquistar nova e grandiosa vitória conjuntamente com Sua igreja.

 

O TRIUNFO DA IGREJA NO PRIMEIRO SÉCULO


Ao regressar Jesus ao céu, Seus apóstolos atiraram-se a todas as direções do mundo em conquista de outros seguidores do Mestre. Começaram a gloriosa empresa em Jerusalém onde fora seu Mestre mais odiado. Judeia e Samaria foram os imediatos objetivos, e então o campo mundial sem quaisquer restrições.


Maravilhoso foi o início da enorme tarefa em Jerusalém. Cheios do poder do alto que lhes fora prometido, anunciaram os apóstolos um Salvador ressuscitado e contaram a sublime história genealógica de Abraão até o Messias, sob demonstrações estupendas de prodígios gloriosos tais como o Mestre operara quando ainda na terra. 


Multidões aceitaram o evangelho, mesmo grande número de adversários do Mestre.1) A igreja que contava antes do Pentecostes uns 500 membros, atingiu imediatamente a muitos milhares.2) E, quando ela foi perseguida e obrigada a deixar Jerusalém, alastrou sua obra missionária em grande proporção.3)


Foi no período desta primeira perseguição contra a igreja que Saulo de Tarso, também perseguidor, foi convertido pessoalmente por Jesus numa abortiva aparição do Senhor a ele.4) Tornou-se então Paulo um destemeroso batalhador pela causa do evangelho da cruz. 


Todo o potencial de sua vida foi posto em ordem de batalha pela causa de Cristo. Por mais de trinta anos combatera bravamente por Jesus, avançando sempre para novas conquistas. Embora tivesse de enfrentar inúmeras privações e perigos, nada e ninguém deteve a sua marcha vitoriosa. 


O livro dos Atos dos Apóstolos encerra o extraordinário triunfo do evangelho de Cristo através do ministério de S. Paulo. Suas quatorze epístolas são evidentes testemunhos do progresso imenso da anunciação das boas novas do evangelho no primeiro século. O império romano continha, já nos dias de Paulo, uma vasta rede de igrejas florescentes, muitas vezes visitadas pelo próprio apóstolo dos gentios que as fundara.


Multidões aceitaram o evangelho no período apostólico. Desde a Índia à Espanha e dos desertos africanos ao Danúbio, estava erguido e vitorioso o estandarte ensanguentado da cruz em milhões de corações. E é ainda Paulo que nos conta da enorme obra por ele e os demais apóstolos realizados, afirmando que o evangelho, nos seus dias, chegara a “todo o mundo” e fora “pregado a toda a criatura que há debaixo do céu”.5) Neste mesmo período foi escrito todo o Novo Testamento incluso a receção do Apocalipse, por S. João, na ilha de seu desterro — Patmos.


O Cavaleiro guia da Igreja era na verdade digno da coroa vitoriosa que recebera antes de encetar a batalha. Todo o triunfo da obra missionária da igreja foi a Ele devido. Ficou bem patente que, quando a igreja, em qualquer tempo, consente em ceder a liderança de sua existência e trabalho a Cristo como Supremo Guia, ela cresce em vigor espiritual e missionário.

 

O SEGUNDO SÊLO


VERSOS 3-4 — “E, havendo aberto o segundo selo, ouvi o segundo animal, dizendo: Vem e vê. E saiu outro cavalo, vermelho; e ao que estava assentado sobre ele foi dado que tirasse a paz da terra, e que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada”.


A VOZ DA SEGUNDA CRIATURA VIVENTE


Ao convidar a segunda criatura vivente ao profeta para contemplar as cenas do segundo selo, parece ter havido um programa pré- organizado para a ocasião da abertura pelo menos dos quatro primeiros selos.


UM CAVALO VERMELHO


O primeiro selo revelou a igreja de Cristo em sua pureza virginal, simbolizada num cavalo branco. Mas, o novo símbolo apresenta a igreja em estado de corrupção. A cor vermelha, em se tratando da vida espiritual, é emblema de pecado: “Ainda que os vossos pecados sejam vermelhos como o carmesim...”1) O pecado só é manifesto coletivamente pela igreja, quando corrompidos ou abandonados os princípios ou os alicerces da fé do evangelho. 


E foi isto o que mudou a condição da igreja cristã. Os sagrados princípios da pura fé do imaculado evangelho, foram corrompidos pela aceitação, por parte da igreja, de ensinos errôneos, de ideias e tradições humanas. A igreja abandonou a sua primitiva beleza espiritual, renunciou a simplicidade evangélica, incorporou doutrinas errôneas e eliminou quase todas as verdadeiras doutrinas da fé cristã original. Este período do segundo selo, de corrupção dos princípios básicos da igreja, estendeu-se desde o ano 100 ao ano 313 A. D.


FALSOS ENSINOS ENTRAM NA IGREJA


Enquanto ainda viviam os apóstolos de Cristo, “já o mistério da injustiça” operava. Todavia eles enfrentaram com denodo a onda malsã que tentava corromper a fé e a doutrina. Na frase de S. Paulo a anciãos da igreja, no seu tempo, de que surgiriam entre eles — homens que falariam coisas perversas, vemos os falsos ensinos que seriam introduzidos na igreja.


2) Aos gálatas advertiu S. Paulo contra um falso evangelho da pena de homens que procuravam “transtornar o evangelho de Cristo”.3) Aos coríntios adverte ainda dos “falsos apóstolos” que eram “obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo”.4) Zelos fanáticos sem entendimento estavam também se manifestando. O teor das cartas dos apóstolos às igrejas é evidência clara de que eles estavam detendo a onda do “mistério da injustiça” que forçava a corrupção da primitiva fé.


Mas infelizmente as portas da igreja foram abertas aos mais degradantes e corruptos ensinos de homens que procuravam a preeminência em seu meio. O manancial da revelação divina foi abandonado em favor das criações filosóficas humanas. Os ensinos dos profetas e dos apóstolos inspirados foram trocados pelos ensinos de homens de mentes corruptas e falíveis. Eusébio, cognominado “pai da história da igreja”, diz daquele período de transição da igreja, o seguinte:


“Porém, quando a santa comitiva dos apóstolos deixou de existir de diferentes maneiras, e estava morta aquela geração que havia tido a honra de ouvir, com seus próprios ouvidos, a sabedoria divina, começou então a ensinar-se na igreja o erro ímpio mediante o engano de falsos mestres. Estes começaram então a pregar a falsamente chamada gnoses (conhecimento) desde o momento em que não havia já nenhum apóstolo em vida, opondo-se assim com todo descaramento à pregação da verdade”.1)


Deste modo o gnosticismo foi o primeiro ou dos primeiros grandes erros que transtornaram a igreja e a afastaram de sua pureza e santidade apostólicas. Forjou várias conceções errôneas sobre a pessoa de Cristo, opiniões que negavam a Sua verdadeira humanidade e Sua morte. 


Ensinou que Cristo não viera em carne mas como espírito ou fantasma; que ensinou Seus discípulos mas sempre como um ser celestial e nunca em carne e ossos; que Ele jamais participou da natureza material. Ensinou ainda, o gnosticismo, que o Deus que criou o mundo não é o Deus do Velho Testamento que Cristo revelou. 


Assim, para o gnosticismo, seu Deus não era o do Velho Testamento, e o seu Cristo não nascera, não morrera e não ressuscitara. O gnosticismo não foi outra coisa senão a combinação da filosofia helênica e a especulação oriental com as crenças primitivas do cristianismo, baseando-se sempre em conhecimentos místicos e sobrenaturais. Foi um grave perigo para a igreja cujos alicerces foram por ele minados.


O marcianismo foi outro perigoso movimento provocado pelo gnosticismo, no segundo século. Separou o cristianismo de seus alicerces históricos. Negou a encarnação de Cristo. Condenou o Velho Testamento e seu Deus. E Marciano, seu organizador, fundou uma igreja própria para ele e seus seguidores, movimento que alcançou até o quinto século.


O montanismo de Montano, outro movimento  filosófico herético do segundo século, começou por ensinar que a promessa de Cristo já havia sido cumprida, e que começava a dispensação do Espírito Santo. Possuía duas profetisas que anunciavam a proximidade do fim do mundo e que a Jerusalém celestial estava para estabelecer-se na Frígia, para onde todos os crentes deviam seguir. Recomendou o mais tremendo ascetismo, o celibato, o jejum e a abstinência da carne.


Irineu, teólogo do segundo século, em sua nova teoria de Cristo como o novo cabeça da humanidade, acrescentou a sugestão de Maria, Sua mãe, como a segunda Eva, ensinando que o nó da desobediência de Eva foi desfeito pela obediência de Maria; o que a virgem Eva amarrou pela incredulidade, dizia ele, a virgem Maria soltou pela fé. Eis aí a exaltação de Maria depois da morte dos apóstolos de Jesus e no período da decadência da igreja.


Tertuliano, convertido ao cristianismo no fim do segundo século, ensinava, entre outras teorias, que há um só Deus e que Pai, Filho e Espírito Santo são aspectos do mesmo Deus único e que não dão a ideia de personagens distintas como nós entendemos.


Orígenes interpretava as verdades cristãs, no terceiro século, em termos do pensamento helênico. Dizia que o universo visível foi criado por Deus como lugar de punições e reforma, onde colocava espíritos caídos na proporção da gravidade dos seus crimes. Ensinou que Cristo, na ascensão, como na ressurreição, perdeu a natureza humana, recebendo a glória de Sua divindade. E pregava que, afinal, todos os homens e todos os demônios incluso o próprio Diabo, serão salvos, sendo isto a restauração de todas as coisas.


Numerosos teólogos sem teologia, antes falsos teólogos, pervertiam a igreja e viviam vida perversa. A adoração do sol, comprovada por Justino o Mártir, o culto aos mortos, o batismo falsificado e o batismo de crianças, a presença física de Cristo na eucaristia, o perdão dos pecados, as penitências, o celibato clerical e um dilúvio de práticas contrárias ao são evangelho, inundavam a igreja e afogavam a fé apostólica cristã verdadeira. Várias obras apareceram com os nomes dos apóstolos, cujos autores pretendiam com isso dar valor a suas opiniões errôneas e despertar interesse e aceitação.


Para que tenhamos uma ideia mais real da calamitosa situação da igreja pós-apostólica, urge que se apresente nesta dissertação ainda duas grandes heresias. A primeira é a heresia da cristologia, que resultou em verdadeiras contendas entre os chamados teólogos daqueles primeiros séculos após os apóstolos. 


Os monarquianos, que se dividiam em duas classes muito diferentes, por um lado ensinavam que Jesus era o Filho de Deus por adoção, e por outro lado que Ele era somente uma manifestação temporária do único Deus. E em Roma, no começo do terceiro século, existia a luta entre três cristologias. Alguns, seguidores de Teodoto, ensinavam que Cristo não era divino; outros ensinavam que de certa maneira Se tornou divino na Sua ressurreição. 


Paulo de Samosata, bispo de Antioquia, 260-272, ensinou que Jesus era um homem, único nascido de virgem, e que Sua união com Deus era apenas moral, e que, por meio desta união ressuscitou dos mortos e recebeu uma espécie de divindade delegada. Samosata foi afinal excomungado e expulso.

 

Noeto, de Smirna, ensinou que Cristo era o próprio Pai, e que o Pai nasceu, sofreu e morreu. Sabélio ensinava em Roma, em 215 que o Pai, o Espírito Santo e o Filho são todos um e o mesmo. Cada um era uma forma de manifestação do único Deus. No Seu caráter de Criador, revelava o Pai, no de redentor, como Filho, e por fim, como Espírito Santo. Sabélio foi excomungado em Roma. Calixto ensinou em Roma que o Pai e o Filho devem ser chamados um só Deus.


A questão da cristologia foi uma verdadeira balbúrdia, que, para descrevê-la, seriam precisas numerosas páginas. O que aqui foi dito é o suficiente para termos uma ideia do abandono da fé, pouco a pouco, pelos seguidores dos apóstolos mortos.


A grande heresia, porém, que redundou em consequências as mais desastrosas para toda a igreja e a que determinou a sua apostasia e a sua união com o Estado romano, foi a ascendência crescente da igreja da cidade de Roma sobre as demais igrejas da cristandade. 


Os bispos das grandes cidades, de grande influência política do império, iam adquirindo uma certa superioridade sobre os outros, e, o de Roma, mais do que todos os outros, estava procurando traduzir-se numa superioridade de jurisdição. Roma, Alexandria, Antioquia, Cartagena e Éfeso, com Jerusalém por sentimentos religiosos, tinham grande preeminência, mas Roma mais do que todas.


Em verdade a igreja de Roma começou a impor-se às demais. Mesmo antes do fim do primeiro século, Clemente, escrevendo aos coríntios em nome de toda a congregação (93-97), falava como quem contava com a obediência. Irineu de Lyon, escrevendo em 185, dá a expressão ao sentimento geral do Ocidente no seu tempo quando declara que aquela igreja foi fundada por Pedro e Paulo, e que por “necessidade todas as igrejas deviam concordar com ela”.


O desenvolvimento do episcopado monárquico tardou. Parece que o primeiro foi de Aniceto (154-165). A influência do seu bispo cresceu rapidamente na luta gnóstica, e com este prestígio veio a primeira asserção geral da autoridade do bispo de Roma em todas as igrejas. Nesta época (155) o costume na Ásia Menor, era o de comemorar a Páscoa com a ceia do Senhor na tarde do dia quatorze de Nisan, data da Páscoa judaica, sem olhar para o dia da semana em que esta data caísse. 


O costume de Roma era o de celebrar a Páscoa sempre no domingo. Em 190 a questão (da data da Páscoa) azedou-se de tal forma que foram convocados sínodos em Roma, Palestina e outras partes, que decidiram a favor da prática romana. As igrejas da Ásia Menor, chefiadas por Policrates, bispo de Éfeso, não se conformaram. 


Ante disto Victor, bispo de Roma (189-198), excomungou as congregações recalcitrantes. Este ato arrojado despertou protestos por toda a parte, notadamente de Irineu de Lyon, mas ficou como uma notável afirmação da autoridade de Roma. E o prestígio de Alexandria e Cartagena no terceiro século, como centros do pensamento cristão, já não podia tirar de Roma a sua posição de líder.


Foi assim que o cavalo, representativo da igreja, mudou de cor. As numerosas heresias mataram a pureza e a fé virginais da igreja, principalmente a repugnante ascensão da igreja da capital do império na liderança das demais do mundo cristão.


"E FOI-LHE DADA UMA GRANDE ESPADA"


As ordens transmitidas ao cavaleiro do segundo selo, para que tirasse “a paz da terra, e que se matassem uns aos outros”, tendo para esse fim recebido ‘uma grande espada”, bem evidencia que ele não era mais o Senhor Jesus. No primeiro século ou na era apostólica, a igreja, sob a liderança de Cristo, prosperou rapidamente, quer em conquistas de conversos ao cristianismo, quer em vida espiritual fundamentada exclusivamente na revelação do Velho e do Novo Testamentos. 


Aquele glorioso triunfo apostólico, porém, estava a desaparecer. A igreja destronou a Cristo de sua liderança preferindo em seu lugar homens falíveis como guias, resultando em grave declínio da verdadeira obra missionária de evangelização e de lutas odiosas entre os seus novos chefes.


Sim, o cavaleiro não tinha mais o arco da conquista e as flechas do puro evangelho, mas uma “grande espada” nua e flamejante. A paz, semeada pela pregação incontaminada do evangelho apostólico, sob a liderança do Filho de Deus, e a convivência dos cristãos em perfeita unidade e amor, desapareceu da igreja. 


A espada simbólica das lutas internas fez a sua nefanda obra e desacreditou diante dos pagãos as virtudes do evangelho da cruz. Terríveis controvérsias surgiram permeadas de odiosas excomunhões, e banições eram lavradas por inúmeros sínodos e concílios provinciais. 


As polêmicas ativaram os ânimos a ponto de as discussões serem mescladas com ataques pessoais e acusações da pior espécie. A lei de Deus, base do correto viver, foi relegada, e a paz; foi perdida de vista na igreja.1) O próprio Príncipe da Paz foi afastado do trono da igreja e ela virou confusão. Estava dado o passo para a apostasia iminente. 


A profecia da decadência cumpriu-se perfeitamente — a paz foi afastada da terra dos povos cristãos e estes mataram-se com as diabólicas armas do ódio e dos ataques e acusações pessoais, apenas para fundamentar a defesa de crassos erros que vituperavam o são cristianismo.


O TERCEIRO SÊLO


VERSOS 5-6 — “E, havendo aberto o terceiro selo, ouvi dizer ao terceiro animal: Vem, e vê. E olhei, e eis um cavalo preto; e o que sobre ele estava assentado tinha uma balança na mão. E ouvi uma voz do meio dos quatro animais, que dizia: Uma medida de trigo por um dinheiro, e três medidas de cevada por um dinheiro: e não danifiques o azeite e o vinho”.


A VOZ DA TERCEIRA CRIATURA VIVENTE


João é mais uma vez convidado para deparar o novo símbolo representativo da igreja. Por certo estava ele ansioso e aflito por ver a nova cena, esperando uma modificação profética do especto da igreja cristã. Mas, teve ele uma amarga decepção. Sua esperança quanto ao futuro da igreja desfez-se ante seus olhos expectantes. 


Jamais pensara que a igreja pura, fervorosa e missionária que ele e os demais apóstolos deixaram no mundo, iria transformar-se tão desastrosamente como a deparara nas cenas daquele estranho livro selado.


UM CAVALO PRÊTO


Em oposição à belíssima cor branca do primeiro cavalo, emblema glorioso da igreja em pureza de fé, eis agora um cavalo preto, representando a igreja no quarto, quinto e parte do sexto século. A cor preta encerra um terrível símbolo. O preto é figura de luto, pranto, dor, fome, e, em se tratando de espiritualidade, designa erro, trevas e apostasia da fé e dos princípios da moral cristã. Tal foi a condição da igreja nos séculos já mencionados. 


A despeito, porém, da luta interna e dos assaltos das perseguições do paganismo, no segundo, terceiro e parte do quarto século, a igreja não estava ainda de todo corrompida, pois a cor do cavalo não era preta, mas vermelha. Mas as polêmicas e as rivalidades internas destes séculos, que haviam dado lugar a muitas heresias, abriram por fim a porta para confirmar estas e estabelecer uma avalanche de erros, tais, que a apostasia lavrou e carcomeu a vida espiritual da igreja, enegrecendo-a fatalmente. 


Referindo-se a esta etapa do terceiro selo e do cavalo preto, que mediou desde o edito de tolerância de Constantino, em 313, até ao estabelecimento do papado, em 538, diz Mosheim o seguinte:


“Aquelas vãs ficções, que uma inclinação à filosofia platônica e às opiniões populares haviam feito adotar pela grande maioria dos doutores cristãos antes do tempo de Constantino, foram agora confirmadas, ampliadas e ornadas de diversas maneiras. 


Daí nasceram aquela veneração extravagante pelos santos mortos, e aquelas absurdas noções de certo fogo destinado a purificar as almas desencarnadas, que agora prevaleciam e que deixavam por toda parte indícios públicos. 


Daí também o celibato dos sacerdotes, o culto das imagens e relíquias que, com o transcurso do tempo quase destruiu a religião cristã, ou pelo menos eclipsou seu lustre e corrompeu sua própria essência da maneira mais deplorável. Um séquito enorme de diferentes superstições foi substituindo gradualmente a verdadeira religião e piedade. Esta odiosa revolução deveu-se a uma variedade de causas.


Uma ridícula precipitação quanto a receber opiniões novas, um absurdo desejo de imitar os ritos pagãos, e de realizá-los com o culto cristão, e aquela ociosa propensão da humanidade em geral para buscar uma religião aparatosa, tudo contribuiu para estabelecer o reinado da superstição sobre as ruínas do cristianismo”. “Necessitar-se-ia um volume inteiro para enumerar as diversas fraudes que astuciosos velhacos praticaram com êxito para enganar aos ignorantes, quando a verdadeira religião ficou quase completamente substituída pela horrível superstição”.1)


Foi também neste desastroso período do cavalo preto que surgiu a misérrima heresia ariana, cuja controvérsia originou-se em 320, em Alexandria, em uma disputa entre Ário, o seu originador, e o bispo Alexandre. Consulte-se algures sobre o Arianismo.


O CAVALEIRO DO CAVALO PRÊTO


Na carta dirigida à igreja de Pérgamo, a igreja cujo período corresponde ao do terceiro selo, que estamos considerando, o Senhor Jesus enfatiza, com evidência, que a igreja cristã estava habitando “onde está o trono de Satanás”. Habitar “onde está o trono de Satanás”, equivale a amparar-se em dito trono. 


Já o Termo “Pérgamo” que significa “elevação”, é emblema da elevação da igreja pelo poder imperial, desde os dias de Constantino aos princípios do sexto século. Daí o cavaleiro não ser outro senão o imperador romano. A igreja, corrompida e apóstata, tornou-se “Igreja Imperial” em lugar de “Igreja Cristã”. Pela primeira vez verifica-se o odioso consórcio entre a Igreja e o Estado, considerado por Deus como “prostituição”.2)


Quando Constantino ascendeu ao trono imperial, a igreja cristã era cruelmente perseguida pelo paganismo romano. Ele viu que, quanto mais sangue cristão era derramado, mais a igreja cristã crescia em número e poder, fato que o impressionou sobremaneira a ponto de ver nela um fator decisivo para a sua política. 


Daí Constantino, em sua astúcia, inventar ter visto no céu uma cruz, debaixo da qual se lia, dissera ele, a frase — IN HOC SIGNO VINCES — Com este Sinal Vencerás. O imperador colocou a cruz no estandarte de seu exército e encarregou de sua custódia e defesa a cinquenta soldados escolhidos. 


Além disso colocou também a cruz nos chapéus, nas armas e nos escudos de seus soldados. Logo promulgou Constantino, conjuntamente com Licínio, com quem se reunira, o célebre edito de Milão em favor da igreja cristã perseguida e duma liberdade religiosa em geral, cujo texto é o seguinte:


“Nós, Constantino e Licínio, estando felizmente reunidos em Milão, para tratarmos de tudo que diz respeito ao interesse e  segurança do império, pensamos que entre as coisas que exigem nossa maior atenção nenhuma tem tanta vantagem para a maior parte dos homens como o decidir qual o modo por que se deve honrar a Divindade. 


Por isso temos resolvido conceder aos cristãos e a todos os outros a liberdade de cada um seguir a religião em que crê, a fim de que a Divindade que está no céu, qualquer que ela seja, dê paz e prosperidade a nós e a todos os nossos súditos.


“Parece-nos ser sistema muito bom e racional não negar a nenhum dos nossos súditos, quer seja cristão ou de outro culto, o direito de seguir a religião que melhor entender. Assim a Divindade Suprema, que cada um de nós livremente adora, poderá conceder seu favor e benevolência costumados. 


E’ ainda necessário que Vossa Senhoria saiba que nós suprimimos todas as restrições contidas no edito precedente, o que já tínhamos enviado, relativamente aos cristãos, e que a partir desta data, nós lhes permitimos a observância de sua religião, sem que de modo algum possam ser molestados ou inquietados.


“Queremos que nossa resolução seja conhecida com toda a segurança possível, para que não ignoreis que nós concedemos aos cristãos a liberdade mais completa e absoluta para praticarem seu culto. Isto que nós concedemos aos cristãos deverá V. S. compreender que também concedemos aos outros, de tal modo que todos podem seguir o culto que quiserem, como convém à tranquilidade do nosso tempo, a fim de que não se lese a honra ou a religião de quem quer que seja.


“No referente aos cristãos ordenamos que os lugares, onde costumavam reunir-se, lhes sejam restituídos, sem obrigação de pagarem ao fisco qualquer importância. Todos aqueles que haviam recebido terras ou dons, devem, quanto antes, devolver tudo isso aos cristãos. Se constar haver outros que tenham comprado, seja-nos isso comunicado para providenciarmos. Todas estas coisas devem imediatamente ser consignadas à comunidade dos cristãos. Podem eles ter os lugares restituídos e possuir coletivamente muitos outros bens, devendo contar com nossa benevolência.


“Em todas estas coisas se portará V. S., a fim de que as vantagens dos cristãos sejam já postas em prática por esta lei e se favoreça assim a tranquilidade pública. Por já termos experimentado o favor divino, manifesto em coisas graves, determinamos isto para bem-estar do império. E para que a nossa benevolência não seja por mais tempo ignorada, trate V. Excia. de fazer publicar em todos os lugares, para que todas as pessoas a possam conhecer”.1)


Este edito do ano 313 foi desastroso para a religião cristã. Posto que com ele cessassem as perseguições e deixasse de correr sangue cristão; que os bens confiscados aos cristãos fossem a eles devolvidos; que os sacerdotes cristãos fossem cumulados de  distinções e a igreja de honrarias; que em bem da religião cristã mandasse o imperador levantar grande número de templos e de magníficas catedrais em muitas cidades como Jerusalém, Constantinopla e Roma, contudo a igreja cristã jazia à beira do abismo, pois o  novo imperador  a tomara como instrumento de sua política e ele próprio a dirigia a seu gosto, procurando estendê-la a todos os lugares do seu domínio. 


Verdadeiramente o imperador era daí em diante o cavaleiro que cavalgava o cavalo preto do terceiro selo relativo ao terceiro período da história da igreja cristã.


Constantino, como prova de que tomara a igreja cristã como simples instrumento de política, nunca se tornou cristão. Até à sua morte manteve-se neutro entre o cristianismo e o paganismo, procurando, ao favorecer a um que o outro não se cresse desprezado. 


Além disso, como real evidência de que não se fizera cristão, mandou cunhar moedas, em 315, em que aparecia com a cabeça velada, nas quais se lia “DIVUS CONSTANTINUS, SOL INVICTUS, COMES”. Daí sua confissão de que o seu deus não era o Deus dos cristãos, mas o “Sol Invictus”, de cujo paganismo continuou sendo pontífice. 


Também deu outras provas de que não se tornara cristão, entre elas o assassínio de seu cunhado Licínio, em 323; o de seu filho maior, Crispo, ídolo do exército e do povo, em 326; e pouco tempo depois mandara afogar sua esposa Fausta, em um banho quente. Espavorido pelo remorso, consultou Constantino aos pontífices do paganismo, a fim de saber que sacrifícios poderia oferecer aos deuses para expiar seus crimes. Mas os sacrificadores rejeitaram as suas ofertas, e ele foi repulso com horror pelo hierofante, cuja voz gritava: “Longe daqui os parricidas, a quem os deuses não perdoam nunca”.1)


Foi Constantino quem convocou o primeiro concílio da igreja, em 325, na cidade de Nicéia, ao qual compareceram 318 bispos. Foi desde esta grande reunião que o império começou a exercer influência sobre a vida interior da igreja e ainda sobre a sua essência dogmática. 


O imperador, sem ser membro da igreja nem sequer exteriormente, era o centro diretivo dos debates. “Foi ele quem convocou este primeiro concílio ecumênico, marcando o lugar e o tempo da reunião, o qual passou a ser em seguida um privilégio da coroa; foi ele quem abriu e presidiu os debates e de tal modo ficou estabelecido este costume, que, mais tarde, quando os imperadores não podiam ou não queriam abrir e presidir pessoalmente a estas assembleias, faziam-se substituir por delegados. 


Também sobre a resolução final deste concílio, Constantino exerceu uma influência decisiva”.2) Está aqui, pois, a incontestável evidência histórica de que a igreja cristã, a começar com Constantino, tornou-se Igreja Imperial, embora muito pesasse sobre o imperador a influência do bispo de Roma.


Foi neste período do terceiro selo que Constantino promulgou a sua célebre lei dominical, no ano 321, segundo a qual cristãos e pagãos deviam venerar, como dia de repouso, o dia do Sol do culto pagão. Sobre esta lei dominical falaremos mais adiante.


A palavra profética cumpriu-se exatamente. A igreja trocou o seu poderoso braço de apoio, Jesus Cristo, pelo do imperador romano. Constantino abriu as portas da igreja ao paganismo, por vontade desta, atingindo ela um vergonhoso estado de corrupção. O Diabo teve êxito completo em misturar o erro com a verdade para corromper e contaminar a igreja do Senhor Jesus. 


Daí em diante, até nossos dias, o cristianismo jaz em sua apostasia geral, com o nome de que vive, estando na realidade sem sua vitalidade original. Constantino, depois de sua obra, sob o poder das trevas, morreu a 22 de maio do ano 337, tendo antes da morte recebido o batismo do bispo ariano Eusébio de Nicomedia, de quem também recebeu o sacramento da eucaristia.


A BALANÇA NA MÃO DO CAVALEIRO


Já compreendemos que este cavaleiro era o imperador. E ele, não contente em exercer o juízo no setor de sua alçada civil, alvorou-se em juiz na igreja. Uma balança é emblema de justiça real, e Constantino e seus sucessores, como já vimos, usurparam este direito da igreja, que jamais foi conferido ao governo civil. Nos dias destes potentados da coroa cesariana era crime desprezar a ortodoxia oficial. Depois de cair o império do Ocidente, o imperador oriental pretendeu esta mesma supremacia, até que Justiniano a transferiu, em 533, ao bispo de Roma.


OS EMBLEMAS DO TRIGO E DA CEVADA


Trigo e cevada são cereais alimentícios muito parecidos. Ambos são produzidos em espigas. Porém, um não é o outro. Diferem um tanto na conformação da espiga, na aparência, na cor e até no alimento intrínseco. Como figuras do período do terceiro selo, o trigo representa a pura verdade do evangelho de Cristo, enquanto a cevada, as tradições e os erros que penetraram na igreja. 


O valor do trigo e da cevada — uma medida de trigo por um dinheiro e três de cevada pelo mesmo preço — indica que de fato havia escassez de trigo, pelo que era de mais valor, enquanto havia abundância de cevada, sendo esta três vezes mais barata. O vocábulo grego “medida” é “choinix”, indicativo do “sextário”, “medida romana para os líquidos e secos, equivalente a dezesseis onças e meia de água”.1)


Tal fora o estado de degradação a que levaram a igreja de Cristo os cristãos apóstatas. E até hoje, para vitupério de Cristo, este estado de coisas perdura no seio do cristianismo nominal, que só tem a aparência de cristianismo, e apresenta ao mundo evidentemente mais “cevada” do que “trigo” ou mais erros tradicionais do que verdades fundamentais.


OS EMBLEMAS DO AZEITE E DO VINHO


A voz do trono que anunciava a condição da igreja em se tratando do alimento espiritual, ordenava aos cristãos a não danificarem “o azeite e o vinho”. Nas Escrituras Sagradas o azeite é simbólico do Espírito Santo1) e o vinho é emblema do sangue purificador de Cristo.


2) A expressão: “Não danifiques o azeite e o vinho”, é uma declaração figurada de que o Espírito Santo e o sangue de Cristo não deviam ser invocados como graças purificadoras e santificadoras enquanto a igreja permanecesse naquele estado deliberado de corrupção da fé e dos princípios do são cristianismo.


O QUARTO SÊLO


VERSOS 7-8 — “E, havendo aberto o quarto selo, ouvi a voz do quarto animal, que dizia: Vem e vê. E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhe dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, e com fome, e com peste, e com as feras da terra”.


A VOZ DA QUARTA CRIATURA VIVENTE


A última das quatro criaturas viventes anunciou a abertura do quarto selo, tomando o profeta posição para contemplar suas cenas. Jamais o amado João julgara que a igreja de seu Senhor atingisse o terrível grau tal como lhe fora feito conhecer pelos selos anteriores e mormente pelo quarto selo, em que, como veremos, o crime tornou-se a ordem do dia na igreja outrora pura e santa.


UM CAVALO AMARELO


Este é o último cavalo da visão dos sete selos. O vocábulo grego que designa a cor deste cavalo é “chloros”, que em si mesmo é um corpo simples, gasoso, de cor esverdeada pálida. “Em dissolução ou em estado gasoso, cloro destrói a parte corante das substâncias vegetais e animais”, razão por que “a indústria o emprega em branquear tecidos”. 


Neste símbolo a igreja aparece com sua cor mudada. Sua cor é agora a pálida cor esverdeada do cloro, a cor da morte. Que esta cor do quarto cavalo indica seguramente morte na igreja, é confirmado pelo nome do cavaleiro que em verdade é chamado “morte”.


O CAVALEIRO DO CAVALO AMARELO


O cavaleiro que agora monta o cavalo ou tem as rédeas da igreja em suas mãos, não mais é o imperador romano do Ocidente cujo império ruiu com as invasões dos bárbaros; não é nem mais o imperador romano do Oriente. 


E muito menos poderá ser Cristo. O cavaleiro que, no período do quarto selo, correspondente  aos  séculos sexto a dezesseis ou que desde o ano 538 a 1517 desempenhou seu funesto papel na igreja, é aquele a quem o imperador Justiniano transferiu as insígnias do poder sobre a igreja, isto é, o papado.


Seu nome de “Morte” é representativo de sua obra nefasta realizada na igreja ou contra a igreja de Cristo, durante os chamados séculos escuros da Idade Média. Como uma prova inconteste de que este hediondo cavaleiro ia efetuar uma obra de carnificina real na igreja, é referido que o Hades o seguia. Hades é o Termo grego que designa o “lugar dos mortos” ou a “sepultura”.


1), O papado, pois, ia efetuar uma obra de chacina na igreja e levar multidões de seus membros à sepultura; ia desembainhar a espada contra os que, na igreja, ainda mantinham sua sinceridade a Cristo e ao evangelho apostólico. Os homens, que pretendiam ser os ministros da palavra da vida, são acusados na profecia como ministros da “morte”. Dezenas de milhões de santos inocentes e verdadeiros seguidores do Filho de Deus, pagaram com a vida a sua fidelidade à verdadeira fé. O que segue é a voz inextinguível da história em confirmação dos hediondos crimes de Roma contra a igreja do Senhor Jesus.


“Ouvi-me, se bem que em verdade eu mal saiba como falar sobre este assunto. Sinto-me quase mudo de horror ao pensar nele. Visitei na Espanha, na França, na Itália, os lugares mais profundamente manchados e tintos com o sangue dos mártires. Visitei os vales de Piemonte. Estive à sombra da grande catedral de Sevilha, no lugar em que queimaram os mártires, ou os despedaçaram membro a membro. 


Tenho pesquisado muitos volumes de história e martirológio. Tenho visitado, seja em viagem, seja em pensamento, cenários demasiado numerosos para os poder enumerar, nos quais os santos de Deus foram mortos por Roma papal, por esse grande carniceiro de corpos e almas. Não vos posso dizer o que tenho visto, o que tenho lido, o que tenho pensado. Não vos posso exprimir o que sinto. Oh! é uma sangrenta história!


“Estive naquele vale de Lucema, onde habitavam os fiéis Valdenses, aqueles antigos protestantes que se apegaram ao evangelho puro através de todos os séculos Escuros, aquele aprazível vale com suas encostas cobertas de pinheiros, que Roma transformou num matadouro. 


Que horríveis massacres de homens mansos, inofensivos,  de espírito nobre! Que horríveis massacres de delicadas mulheres e indefesas crianças! Sim, vós os odiastes, caçastes, armastes-lhes ciladas, os torturastes; os apunhalastes, os atravessastes com lanças, os empalastes, os enforcastes, os assastes, os esfolastes, os cortastes  em pedaços, os violastes, desrespeitastes as mulheres, as crianças; enterrastes pedras e paus, entulhaste-os de pólvora e depois os fazíeis explodir; vós os rasgastes de meio a meio, membro a membro, os arremessastes em precipícios, os despedaçastes de encontro às rochas; vós os torturastes, os mutilastes, os queimastes, os despedaçastes, os massacrastes homens santos, santificadas mulheres, mães, filhas, tenros meninos, inocentes criancinhas, às centenas, milhares, milhares de milhares. 


Vós os sacrificastes em montes, hecatombes, transformando toda a Espanha, Itália, França, a Europa cristã, num matadouro, num ossário, num Aceldama. 


Que horrível! E’ demasiado horrível para se demorar nisso o pensamento. A vista se obscurece, desmaia o coração, a alma fica aturdida em presença do espantoso espetáculo.


“O’ sicário, dourado sicário, de fronte e coração de aço! vermelhas são as tuas vestes, tuas mãos são vermelhas. Teu nome está escrito neste livro. Deus o escreveu. O mundo tem lido. És uma assassina, ó Roma. És a Babilônia assassina — “a Grande Babilônia”, embriagada, repugnantemente embriagada; sim embriagada com o sangue sagrado que derramaste em rios, em torrentes, o sangue dos santos, o sangue dos mártires de Jesus”.1)


Não só na profecia do quarto selo é o papado apontado como o exterminador da igreja nos Séculos Medievais. As profecias de Daniel falam bem claro sobre suas impiedosas perseguições dos santos.2) O Apocalipse ainda refere noutras narrativas proféticas a esses horríveis crimes dos pretensos sucessores do humilde S. Pedro.3) E parece incrível, que em pleno século XX, a igreja papal ainda arrogue as mesmas pretensões de matar os por ela considerados heréticos. 


Numa obra católica, publicada em 1911, é audazmente pretendido que a igreja tem o divino direito de "confiscar a propriedade dos heréticos, aprisioná-los, e condená-los às chamas”. “Em nosso século o direito de infligir as mais severas penalidades, mesmo a morte, pertence à igreja porque a experiência nos ensina que não há nenhum outro remédio”, pois, “o último recurso é a pena de morte”. 


E o mesmo autor continua: “Não há ofensa mais grave do que a heresia..., e, portanto, ela deve ser desarraigada com fogo e espada. E’ um dogma católico o que deve ser fielmente crido, que a pena extrema não somente pode, mas deve ser infligida sobre os obstinados heréticos”.4) Esta confissão evidencia o totalitarismo da igreja católica nos séculos passados e suas pretensões ao mesmo poder no século atual.


OS INSTRUMENTOS DOS CRIMES DO PAPADO


Espada, fome, peste e feras da terra são as armas destruidoras usadas pelo papado contra as testemunhas de Jesus. A espada das cruzadas contra os Valdenses, Albigenses, Huguenotes e outras vívidas testemunhas do Senhor Jesus, tem muito a dizer nas páginas da história de Roma. 


Os satânicos cárceres dos tribunais da inquisição papal têm também muito a dizer sobre a terrível fome e as assoladoras epidemias que levaram multidões de santos encarcerados à morte. Homens quais “feras da terra” ou piores que elas, — prelados, bispos, cardiais, papas, — não se saciavam nunca de carnagens e do sangue dos seguidores do Filho de Deus. 


Os maiores crimes da história contra os santos encontram-se na história do papado romano. Se os pecados de Sodoma haviam atingido os céus, os crimes da Sé romana não deixaram de lá chegar, para que como aquela receba esta um dia a sua justa retribuição.


A quarta parte da terra foi ensanguentada de sangue inocente e santo. As profecias das trombetas fazem referência apenas à terça parte da terra conhecida, que eram a Europa, a Ásia e a África. Nos dias, porém, em que a espada papal fazia as suas vítimas na igreja de Cristo, Colombo descobriu mais uma parte da terra, até então desconhecida — a América. Assim as carnificinas daqueles homens-feras eram efetuadas na quarta parte da terra — a Europa.


Se toda a história das chacinas do papado contra as verdadeiras testemunhas de Cristo fosse coletada, certamente que não poucos volumes poderiam ser editados. O que neste sentido, porém, foi dito nesta dissertação do quarto selo, é o bastante para certificarmo-nos do cumprimento da profecia.


O QUINTO SÊLO


VERSOS 9-11 — “E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram. 


E clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? E foram dadas a cada um compridas vestes brancas e foi-lhes dito que repousassem ainda um pouco de tempo, até que também se completasse o número de seus conservos e seus irmãos, que haviam de ser mortos como eles foram”.


AS ALMAS DEBAIXO DO ALTAR


O quinto selo é uma sucessão inequívoca do quarto selo e estende- se desde o ano 1517 até 1755. No quarto selo vimos os terríveis extermínios do papado contra os santos do Altíssimo, sendo mencionado que o Hades ou a sepultura, seguia a estas matanças, isto é, que os mártires baixaram à sepultura, à medida que pereciam. Porém, o quinto selo apresenta-nos o quadro das testemunhas de Deus e de Seu Filho chacinadas exatamente no quarto selo pela espada papal às dezenas de milhões.


Como pudera João ver as almas dos mártires debaixo do altar? Que significam os termos “Alma” e “Altar”?  O vocábulo  “alma” de nosso texto, vem do grego “psyche” e ocorre 103 vezes no Novo Testamento. Segundo Young, em sua Analytical Concordance to the Bible, “psyche” tem o significado de “alma animal”, o que equivale a “ser vivente”, ou, mais propriamente, a uma “pessoa”. 

 

Inúmeras vezes no Novo Testamento “psyche” é traduzido diretamente por "pessoa” enquanto nos demais em que aparece tem outro significado. Por exemplo, é mencionado que “psyche” “descansa”, come, bebe e folga”;1) e que é, pois, este “psyche” senão uma pessoa denominada de “alma”? Pode uma alma imaterial descansar, comer, beber e folgar? Referindo-se aos conversos do Pentecostes, a história dos Atos dos Apóstolos diz que “naquele dia agregaram-se quase 3.000  almas” (psyche) à igreja, pelo batismo.


2) Porventura estas almas pentecostais batizadas eram incorpóreas? Não; eram pessoas, o que mais uma vez confirma que “Psyche” tem o significado que Young lhe dá, isto é, “alma animal” ou pessoa vivente. “E José mandou chamar”, ao Egito, “a seu pai Jacó, e a toda a sua parentela, que era de setenta e cinco almas”.


3) Novamente “psyche” indica pessoas reais, a parentela de José.  Poderíamos continuar a referir todos os textos do Novo Testamento em que “psyche” é usado, e a conclusão seria a mesma. Mas, apenas um texto mais ainda. Salientando a ressurreição de Jesus, menciona S. Pedro a profecia de Davi de que a Sua alma (psyche), não foi deixada no Hades (sepultura), e torna claro que o profeta se referiu à ressurreição de Cristo da sepultura.


4) E todos sabemos que o “psyche” de Jesus que saiu da sepultura, não foi uma alma incorpórea, mas o próprio Senhor em carne   e ossos. Esta é talvez a mais forte evidência de que “psyche” tem apenas   o significado de “alma animal” ou simplesmente de “pessoa”.


Diante destes testemunhos da inspiração, o profeta vira em visão as próprias pessoas dos mártires das perseguições papais do quarto selo, sob o altar, e não suas almas desincorporadas. Resta, porém, sabermos agora, a que altar se refere a revelação.


Os imortalistas creem e ensinam que o altar, sob o qual foram vistas as almas dos mártires, é um altar localizado no céu, e que, portanto, dizem eles, as almas dos santos, sejam de que época for da história, ascendem ao céu depois da morte de seus corpos. Mas, essa crença baseada no quinto selo, está em plena desarmonia com a visão do profeta. 


Em primeiro lugar, vimos já como o vocábulo “alma”, do grego “psyche”, de modo algum designa almas desincorporadas. Em segundo lugar é evidentemente claro que as almas dos santos mártires foram vistas debaixo do altar onde foram sacrificadas, e, em nenhuma parte das Sagradas Escrituras consta haver no céu um altar sacrifical e muito menos de mártires humanos do cristianismo.


No céu existe um só altar, que é o altar do incenso, localizado no lugar santo do santuário, denominado também de “altar das orações”, nada tendo que ver com sacrifícios e muito menos humanos.5) Os mártires do cristianismo não são mortos no céu; ali no império da luz e do bem, ninguém é perseguido por sua fé cristã ao ponto de ter que selá-la com seu sangue. Além disso, a visão dos sete selos compreende cenas que se desenrolariam na terra, com referência à igreja de Cristo, e não no céu.


Sem nenhuma dúvida e nenhuma objeção eficaz, o altar, onde foram os mártires do quarto selo sacrificados, é a própria terra onde os abatera a espada do papado romano. Antecedentemente a eles, inúmeros cristãos foram sacrificados no altar da terra. 


S. Paulo diz de si mesmo: “Porque eu já estou sendo oferecido por aspersão de sacrifício”.1) Seu martírio tomou lugar aqui na terra, onde o sacrificaram seus oponentes. 


Também o Senhor Jesus foi sacrificado na terra, o altar de Seu martírio. A expressão de S. João de que viu “debaixo do altar as almas dos que foram mortos” no período da opressão despótica do papado, deve ser entendida como uma afirmativa de que eles estão debaixo da terra, o altar em que os sacrificaram ou que estão em seus sepulcros e não no céu onde não há nenhum altar para tal.


A oração de alguns mártires era o verdadeiro clamor da profecia. Alguns que deram suas vidas em testemunho de sua fé em Cristo reconheceram o significado desta profecia do quinto selo. “O Espelho do Mártir”, um velho livro holandês, dá o seguinte colóquio entre Cornélio, o monge, examinando Herman, que foi queimado no poste em 1569:


“Cornélio: “Ah! Você maldito, endurecido e teimoso anabatista! Como o Diabo no inferno (onde você irá logo) incitará tua boca amaldiçoada com pez ardente, alcatrão e enxofre; espere um pouco somente”.


“Herman: “Não inteiramente; só irei para debaixo do altar, que João viu em sua revelação, às almas que foram mortas pela palavra de Deus, e pelo testemunho que deram, e que clamam com grande voz, dizendo: Até quando, ó Senhor, Santo e verdadeiro, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam na terra”?2)


PORQUE O PAPADO MARTIRIZOU OS SANTOS


A resposta encontramos na profecia alusiva aos próprios mártires. Em primeiro lugar, diz a revelação, sofreram eles o martírio por amarem a “palavra de Deus”, as Escrituras Sagradas. Eis a razão primária por que foram mortos às dezenas de milhões. E foi também “por amor do testemunho que deram” que foram abatidos. 


E qual o “testemunho que deram?” Oh, sim, eles honraram ao Criador e ao Salvador acima de tudo no mundo entre os que não o faziam; tornaram manifesta em suas vidas a gloriosa luz do puro evangelho do Senhor. Como filhos de Deus viveram ante os inimigos da verdade divina a vida por ela recomendada.


O GRANDE CLAMOR DOS MÁRTIRES


Já vimos que o Termo “alma” é sinônimo da pessoa dos mártires. Uma outra grande evidência de que eles não estão nos céus em almas desincorporadas, é que, primeiro, pedem vingança do “nosso sangue”, clamam eles. Nenhum dos imortalistas crê que almas tenham “sangue”. Mais uma vez é confirmado, pelo teor da profecia, tratar-se de pessoas e jamais de almas sem corpos. Porém, a prova mais forte de não se tratar de almas que estejam no céu, é que elas pedem vingança contra seus matadores. 


Porventura alguém é levado ao céu para pedir vingança contra seus algozes? E’ o lugar de eterna glória e perpétua felicidade, lugar para pedidos de vingança, que é ao mesmo tempo uma manifestação de ódio? Há lugar para ódio no coração dos habitantes do céu? Não; nunca, jamais. Descontentamentos e intranquilidades são inadmissíveis na eterna glória. 


Repugna a ideia de que as almas estejam encerradas sob um altar celestial, pedindo vingança, enquanto todos os demais habitantes celestiais se regozijam e tributam ao Todo-poderoso os mais altos louvores e glórias, como expressam os capítulos quatro e cinco do Apocalipse.


O clamor figurado dos milhões de milhões de mártires do quarto selo, longe de encerrar quaisquer afirmativas de que eles estejam no céu, é uma evidência de que o sangue que lhes derramaram seus inimigos será vingado no tempo devido. “Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor”.1) Seus chacinadores pagarão, um dia, o sangue que deles derramaram injustamente. 


O sangue de seus assassinos será derramado pelo sangue que deles derramaram.2) Sobre os judeus, dissera Jesus, cairia o sangue dos justos que eles derramaram.3) O crime de Roma, de extermínio dos santos, é tão aviltante à vista de Deus, que a revelação representa as vítimas como clamando vingança ao Todo-poderoso. E’ um clamor de justiça que será satisfeito.


Mas, insistem os imortalistas que estas almas devem estar conscientes porque clamam. Eles voluntariamente ignoram os simbolismos do Apocalipse, e que as Escrituras Sagradas nalguns casos, personificam e atribuem vida até a objetos inanimados. Uma parábola do Velho Testamento atribui o dom da fala às árvores.


4) O profeta Habacuc diz que a pedra “clama” da parede e a trave responderá do madeiramento.5) S. Tiago refere que o salário dos trabalhadores, diminuído, clama a Deus.6) E Deus mesmo dissera a Caim: “A voz do sangue do teu irmão clama a Mim desde a terra”.7) E este clamor simbólico do sangue de Abel foi o clamor emblemático do primeiro mártir, demonstrando a culpabilidade de Caim e a sua inexorável vingança.


Do exposto acima, porém, não nos consta que as árvores, a pedra, a trave, o salário e o sangue possam falar para clamar. Cada caso foi demonstrado, como se as coisas inanimadas pudessem falar para que soubéssemos que Deus não fica indiferente às injustiças cometidas contra Seus filhos e Seus santos.  


O mesmo é  evidente com os crimes contra os santos mártires praticados pelo papado. À justiça de Deus não estão encobertos; mas, o clamor simbólico das vítimas torna claro que eles serão vingados com ampla vingança sobre seus assassinos.


Uma das vítimas de Roma, Leonardo Schoener, que foi decapitado em Rottemburg, Bavária, a 14 de janeiro de 1528, escreveu a seguinte oração, achada em seus papéis na cela de sua prisão: “Estamos dispersos como ovelhas sem pastor. Fomos compelidos a abandonar casa e lar. Somos como corvos noturnos que habitam nas rochas. 


Nossas moradas estão nas cavernas e rochedos escarpados ... Não só os homens, mas também mulheres e donzelas têm dado testemunho à verdade que Jesus Cristo é a verdade, e o Único Caminho para a eterna vida. O mundo ainda rola, e não descansa: ele delira como se estivesse louco. Eles inventaram mentiras contra nós. Não cessam seus fogos e homicídios. 


O’ Senhor, até quando estarás em silêncio? Até quando não julgarás o sangue dos Teus santos? Suba ele ante teu trono. Quão precioso a Teus olhos é o sangue dos Teus piedosos santos. Portanto temos conforto em toda a nossa necessidade, um refúgio em Ti só, e em ninguém além de Ti; mas nenhum conforto, nem repouso, nem paz nesta terra. Mas aquele que espera em Ti jamais será confundido. O’ Senhor, não há nenhum pesar tão grande, capaz de separar-nos de Ti”.1


Este importante testemunho de um dos milhões de vítimas do despotismo e intolerância de Roma-papal, elucida eloquentemente o clamor profético dos mártires. Ainda em vida, sabendo que a levariam ao suplício, pede vingança do sangue dos escolhidos do Senhor, contra seus carrascos. Não, não; as almas por João vistas sob o altar, clamando vingança, não estavam no céu, mas sob o altar, sob seus sepulcros, a terra, debaixo da qual ainda permanecem.


“E FORAM DADAS A CADA UM COMPRIDAS VESTES BRANCAS"


Os mártires baixaram às suas sepulturas do modo mais ignominioso. Seus inimigos falsearam os motivos de suas vidas; mancharam a reputação e infamaram os nomes deles; e de vergonha e opróbrio foram cobertas suas tumbas, como se contivessem o pó dos mais vis e desprezíveis seres humanos. A igreja que os perseguiu e os matou, e que moldava então os sentimentos das principais nações da terra, não poupou esforços para fazer de suas vítimas um objeto de aborrecimento para todos.


Mas, a Reforma Luterana instalada no século dezesseis, aliás em 1517, e que ganhou terreno mais e mais, tirou a máscara de Roma e descobriu seus crimes e sua corrupção. Nações ilustres olharam Roma como um poder corrompido e corruptor, cuja reputação foi baixando precipitadamente. Por fim foram plenamente expostas todas as corrupções e abominações romanas, destacando-se o gigantesco sistema da iniquidade da corte de Roma em toda a sua deformidade demoníaca, diante do mundo. 


A Reforma deu ao povo a Bíblia na língua vulgar e a sua pregação constatou que aqueles, contra os quais a Sé romana desembainhara sua espada e os assassinara, como herejes, eram bons, honestos, puros, fiéis e verdadeiros cristãos. Assim foi notório que sofreram o martírio não por serem vis criminosos e hereges, mas pelo único motivo de amarem a “palavra de Deus e darem um digno “testemunho” do nome cristão e do nome do Salvador. 


Então suas virtudes foram admiradas; aplaudida foi a grande fé que lhes dera valor no martírio; seus nomes foram memorizados; e honrado foi o heroísmo com que marcharam para o cadafalso em defesa dos direitos de Jesus Cristo. Foi deste modo que receberam compridas vestes brancas. A própria revelação vindica assim o santo caráter daquelas verídicas testemunhas do Salvador, covardemente martirizadas pela tirania diabolesca do papado. Em outros termos, a Reforma os vestiu com as vestes da justiça de Cristo.


Quando a Europa, desperta pela Reforma, se viu diante da realidade da natureza do papado, um clamor de vingança foi o resultado lógico da mudança de atitudes para com aqueles que tinham sucumbido como “heréticos”, mas que eram agora olhados como “santos” e “mártires”. Milton, o poeta cego, expressou em versos o clamor por justiça de ambos, o sangue dos mártires e os lábios dos vivos que estavam enfim livres do cativeiro que tinha escravizado as almas de milhões durante os séculos medievais:


“Vinga, ó Senhor, a matança de teus santos cujos ossos “Jazem espalhados sobre as gélidas montanhas alpínicas;


“Mesmo aqueles que guardaram a Tua verdade tão pura como na antiguidade, 

“Quando todos os nossos pais adoravam o pau e a pedra,


“Não olvides: em Teu livro lembra seus gemidos “Que foram Tuas ovelhas, e em seus antigos apriscos


“Mortas pelos sanguinolentos piemonteses que rolaram “Mãe com o filho abaixo das rochas. Seus lamentos


“Os vales ressoaram às montanhas, e elas ao céu. Seu sangue martirizado e suas cinzas espalhadas “Sobre todos os campos italianos, ainda agita o  triplo tirano;  que destes possa crescer


“Um cêntuplo, que tendo aprendido o Teu caminho


“Possa escapar apressadamente da desgraça de Babilônia!”1)


"E FOI-LHES DITO QUE REPOUSASSEM AINDA UM POUCO DE TEMPO"


Os mártires perguntaram figurativamente “até quando” seriam vingados. Mas, depois de o “verdadeiro e Santo Dominador” vindicar a justiça de Suas fiéis testemunhas, mediante a obra da Reforma, responde-lhes à súplica por vingança: Deviam repousar ainda um pouco mais. Isto é mais uma concludente prova de que na realidade não estavam no céu desfrutando o eterno gozo, mas em seus sepulcros onde um pouco mais deveriam permanecer. 


Permanecer ali até que outros, não poucos de seus conservos, selassem também, com sangue, sua fé, até que o número deles, como mártires sob o tacão romano, fosse completado. O tacão de Roma continuou a pisar os “santos do Altíssimo” e massacrá-los mesmo quando a Reforma se estendera e se estabelecera firmemente, e centenas de milhares tombaram em terríveis sortidas do ódio de Roma”! O punhal dos assassinos não se fartava de sangue e de carnagens.


Uma multidão ainda de vítimas, foi agregar-se às que já estavam sob o “altar”. E juntos esperam a vingança sobre seus homicidas. Terrível vingança há de ser aquela no tempo designado pelo Todo-poderoso. 


Mas aquelas fiéis multidões que sucumbiram “por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram”, receberão o reino e, com o seu Senhor, que amaram mais que suas vidas, reinarão pelos séculos intérminos da gloriosa eternidade. 


Também os mártires da era do Velho Testamento, “tendo testemunho pela fé, não alcançaram a promessa: provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados”.1) Estão também guardados “debaixo do altar” da terra que lhes sorveu o sangue, para que um dia, conjuntamente com todos os mártires do Novo Testamento, recebam o imperecível galardão.


O SEXTO SÊLO


VERSOS 12-17 — “E, havendo aberto o sexto selo, olhei, e eis que houve um grande tremor de terra; e o sol tornou-se negro como saco de cilício, e a lua tornou-se como sangue. 


E as estrelas do céu caíram sobre a terra, como quando a figueira lança de si os seus figos verdes, abalada por um vento forte. E o céu retirou-se como um livro que se enrola; e todos os montes e ilhas forem removidos dos seus lugares. E os reis da terra, e os grandes, e os ricos, e os tribunos, e os poderosos, e todo o servo, e todo o livre, se esconderam nas cavernas e nas rochas das montanhas; E diziam aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós, e escondei-nos do rosto daquele que está assentado sobre o trono, e da ira do Cordeiro; porque é vindo o grande dia da sua ira; e quem poderá subsistir?”


E EIS QUE HOUVE UM GRANDE TREMOR DE TERRA


Os eventos deste sexto selo não se acham em nada relacionados com a história da igreja cristã como os anteriores. Não há nele nenhuma linguagem figurada como nos antecedentes, senão estritamente literal. Os portentosos acontecimentos revelados neste selo prenunciam o maior acontecimento dos séculos: O Segundo Advento de nosso Senhor Jesus Cristo em grande glória e suprema Majestade. 


A profecia estabelece “um grande tremor de terra” como marco inicial do sexto selo. E o grande terremoto a primeiro de novembro de 1755, preenche absolutamente os requisitos da profecia.


Evidentemente não fora Lisboa a vítima única do tremendo abalo daquele ano. Porém, foi a velha capital portuguesa a maior vítima do grande cataclisma, pelo que ele é denominado de — Terremoto de Lisboa. Os relatórios que a nós chegaram dão-nos um quadro da horrorosa tragédia que viveu Lisboa naquele dia fatídico:


“Em Lisboa, ‘um som como de trovão foi ouvido sob o solo, e imediatamente depois violento choque derribou a maior parte da cidade. No lapso de mais ou menos seis minutos, pereceram sessenta mil pessoas. O mar a princípio se retirou, deixando seca a barra; voltou então, levantando-se doze metros ou mais acima de seu nível comum’. 


‘Entre outros acontecimentos extraordinários que se refere terem ocorrido em Lisboa durante a catástrofe, esteve o soçobro do novo cais, construído inteiramente de mármore, com vultosa despesa. Grande número de pessoas ali se ajuntara em busca de segurança, sendo um local em que poderiam estar fora do alcance das ruínas que tombavam; subitamente, porém, o cais afundou com todo o povo sobre ele, e nenhum dos cadáveres jamais flutuou na superfície’.


“‘O choque’ do terremoto ‘foi instantaneamente seguido da queda de todas as igrejas e conventos, de quase todos os grandes edifícios públicos, e de mais da quarta parte das casas. Duas horas depois, aproximadamente, irromperam incêndios em diferentes quarteirões, e com tal violência se alastraram pelo espaço de quase três dias, que a cidade ficou completamente desolada. 


O terremoto ocorreu num dia santo, em que as igrejas e conventos estavam repletos de gente, muito pouca da qual escapou”’. ‘“O terror do povo foi indiscritível. Ninguém chorava; estava além das lágrimas. Corriam para aqui e para acolá, cheios de delírio, com horror e espanto, batendo no rosto e no peito, exclamando: “Misericórdia! é o fim do mundo!” Mães esqueciam-se de seus filhos e corriam para qualquer parte, carregando crucifixos. 


Infelizmente, muitos corriam para as igrejas em busca de proteção; mas debalde foi exposto o sacramento; em vão as pobres criaturas abraçaram os altares; imagens, padres e povo foram sepultados na ruína comum’. Calculou-se que noventa mil pessoas perderam a vida naquele dia fatal”.1)


Assim Lisboa, um dos centros de carnagens do papado naqueles dias, sofreu a ira da natureza — um terremoto acompanhado de fogo e inundação. “O edifício principal que também desabou por completo foi o tribunal da inquisição; seguiu-se depois o suntuoso colégio dos jesuítas que sepultou a todos os que nele viviam como se o Senhor houvesse querido dar a entender a proximidade da ruína daquela ordem sem consciência”.2)

 

A EXTENSÃO DO GRANDE TERREMOTO


A extensão do cataclisma foi enorme e jamais atingida anterior e posteriormente por terremoto. Posto que, geralmente, conhecido por terremoto de Lisboa, estendeu-se pela maior parte da Europa, África e América. Foi sentido na Groenlândia, nas Índias Ocidentais, na ilha da Madeira, na Noruega e Suécia, Grã-Bretanha e Irlanda. 


Abrangeu uma extensão de mais de dez milhões de quilômetros quadrados. Na África, o choque foi quase tão violento como na Europa. Grande parte da Argélia foi destruída; e, a pequena distância de Marrocos, foi tragada uma aldeia de oito ou dez mil habitantes”.1) Em Antígua e Barbados, como também na Escócia, Alemanha, Holanda, Córsega, Suíça e Itália, sentiram-se tremores e ligeiras oscilações do solo.


“Diz-se que o movimento deste terremoto foi ondulatório, e que viajava à velocidade de 30 quilômetros por minuto. Uma grande onda varreu a costa da Espanha, e diz-se que se elevou a dezoito metros em Cadiz. Em Tanger, África, elevou-se e caiu dezoito vezes sobre a costa; em Funchal, Madeira, elevou-se perpendicularmente uns cinco metros acima da maré alta”. “Em Kinsale, Irlanda, uma grande onda precipitou-se ao porto, fez girar vários navios, e tombou sobre a praça do mercado”.


Com o correr do tempo tem havido terremotos que, embora de consequências muito severas em certas localidades, foram de extensão bem reduzida. O denominado de Lisboa, porém, como acabamos de apreciar, foi o “grande tremor de terra” da profecia e proporciona-nos a data incontestável do sexto selo e da série de sinais precursores do dia do juízo ou da intervenção de Deus, por Jesus Cristo, no caos mundial da civilização hodierna.


” E O SOL TORNOU-SE NEGRO COMO O SACO DE CILÍCIO"


Antes desta anunciação apocalíptica do escurecimento do sol, outras profecias muito anteriores fizeram a mesma referência como um sinal do fim do mundo ou da Segunda Vinda de Cristo.


2) O Senhor Jesus, referindo-se, pessoalmente, aos sinais de Seu segundo Advento, aludiu ao escurecimento do sol, salientando o tempo exato desse acontecimento, isto é, “logo depois” da grande aflição ou perseguição contra os cristãos na Idade Média, movida pelo papado.3) E, segundo atesta a história, as perseguições ou a “grande aflição”, causada pela espada de Roma, cessou cerca do ano de 1773. Logo depois deveria ocorrer o grande fenômeno.


Foi precisamente a 19 de maio de 1780 que tomou lugar o sobrenatural escurecimento do sol, apenas sete anos depois da cessação das perseguições contra os santos. As narrativas que até nós chegaram do grande escurecimento, são perfeitamente comprobatórias da profecia. O continente americano foi o primeiro a ser envolto pelas densas e estranhas trevas, pois que se manifestaram nos Estados Unidos, desde cerca das dez e meia hora da manhã até ao pôr do sol.


“Multidões acreditavam que ia chegar o fim do mundo; homens no campo caíam de joelhos a orar; muitos correram à casa de vizinhos para confessar culpas e pedir perdão; multidões acorriam aos templos, onde os havia, e ali, ministros piedosos, exortando-os ao arrependimento, intercediam junto a Deus em seu favor; e em toda a parte, nesse dia de espanto e alarme, os descuidosos de outros tempos refletiam sobre seus pecados e lembravam-se de seu Criador’’.


1) “O congresso de Connecticut achava-se em sessão em Hartfort. Quase prevalecia a opinião de que o dia de Juízo houvesse chegado. A câmara dos representantes, impossibilitada de executar seu expediente, adiou a sessão. Uma proposta para adiar o Concílio (este era um segundo corpo legislativo chamado o Concílio do Governador) estava sendo considerada. 


Quando foi pedida opinião do Cel. Davenport, respondeu ele: ‘Sou contrário ao adiamento. Ou o dia de juízo está se aproximando, ou não. Se não está, não há motivo para o adiamento; se está, prefiro ser encontrado praticando o meu dever. Desejo, portanto, que se tragam velas’”.2)


A grande escuridão não se limitou à América do Norte. Foi observada em toda a Europa e grande parte da Ásia e África.3) Andou de continente em continente como uma advertência do céu às descuidadas multidões em face da proximidade do fim da civilização em seu estado de rebeldia contra as leis do Criador.


O sol apresentava, como reza a profecia, a cor do “saco de cilício”. Este era um tecido grosseiro de pelos de cabra ou camelo, fabricado na Cilícia, donde o seu nome. Sua cor era semelhante à do sol quando olhado através de um vidro bem enfumaçado, sendo esta a cor real do astro naquele memorável dia, aliás, uma semelhança sanguínea.


“Que as trevas não foram causadas por um eclipse é manifesto, pelas várias posições dos planetas do nosso sistema naquela ocasião; pois a lua esteve a mais de cento e cinquenta graus do sol durante todo o dia, e, consoante os cálculos rigorosos feitos pelos mais celebrados astrônomos, não podia, na ordem da natureza, haver passagem do planeta Vênus ou Mercúrio sobre o disco solar nesse ano; não podia ser um cometa — muito menos uma montanha — que obscurecesse a atmosfera, pois isso deixaria ainda inexplicada a profunda escuridão da noite seguinte. 


Nem a um eclipse do sol se seguiria tão excessiva escuridão noturna; e quanto à lua, ela estava nessa ocasião a mais de quarenta horas de movimento para além do ponto de oposição ao sol”.4)

 

O dia escuro constituiu um acontecimento tão importante na Nova Inglaterra que foi comemorado em um dos poemas de Whittier:


“Foi num dia de maio do longínquo ano De mil setecentos e oitenta, que baixou Sobre a florescência e vida amena primaveril, sobre a fresca terra e os céus de meio dia, O pavor de uma grande escuridão...


“Homens oravam, mulheres choravam; os ouvidos aguçavam-se Para ouvir o toque condenatório da trombeta ao despedaçar-se O firmamento enegrecido, para que a terrível face de Cristo Olhasse através das nuvens fendidas, não com o olhar que teve Como amante hóspede em Betânia, mas severo, Personificando a Justiça e a inexorável lei”.1)


"E A LUA TORNOU-SE COMO SANGUE"


Foi este também o vaticínio do profeta Joel ao referir-se à grande escuridão.2) Todos os entendidos sabem que a lua é um satélite da terra e que sua luz é a própria luz solar refletida. Na ocasião do escurecimento do sol, a luz que este apresentava na ocasião era a única que a lua podia refletir, a cor escura do sangue, o que mais uma vez confirma plenamente a cor do saco de cilício manifesta pelo sol. 


Segundo várias notícias que se conservam da época da repentina escuridão, ela manifestou-se também no ano de 1783, na Europa, Ásia e África, como vimos. E, o periódico Neue Hamburger Zeitung de 18 de julho de 1783 noticiava que “o sol e a lua, ao nascerem e se porem, são de cor vermelha de sangue”.


A grande treva constituiu um fenômeno inexplicável pela ciência. Unicamente a revelação a define como um sinal precursor da Segunda Vinda de Cristo à terra. Desde que sucedeu, decorreram já mais de 170 anos, pelo que o ajuste com a desequilibrada civilização deve estar às portas.


” E AS ESTRÊLAS DO CÉU CAÍRAM SÔBRE A TERRA..."


Também o Senhor Jesus predisse esse sucesso conjuntamente ao anunciar o escurecimento do sol e da lua. E, cinquenta e três anos após a escuridão do sol e da lua, cumpria-se mais este notável detalhe do sexto selo. Nos Estados Unidos foi mais intenso e memorável o cumprimento da profecia. Na madrugada de quarta-feira, 13 de novembro de 1833, o impressionante chuveiro de estrelas cadentes tomou lugar, do qual várias testemunhas nos legaram solenes relatórios do fenômeno.


“Denison Olmsted, da Universidade de Yale, disse: ‘Os que tiveram a felicidade de testemunhar a exibição de estrelas cadentes na madrugada de 13 de novembro de 1833, viram provavelmente a maior demonstração de fogos celestes que já houve desde a criação do mundo, ou pelo menos nos anais compreendidos nas páginas da história’. Calculou ele que os meteoros caíam à razão de 34.640 por hora.


“O mais sublime fenômeno de estrelas cadentes, do qual o mundo tenha fornecido registo”, diz Burrit, “foi testemunhado através dos Estados Unidos, na manhã de 13 de novembro de 1833. Não se averiguou precisamente a inteira extensão dessa assombrosa exibição, mas compreendeu ela parte considerável da superfície da terra. 


A primeira aparência foi a de fogos de artifício da mais imponente grandiosidade, cobrindo toda a abóbada dos céus de miríades de bolas de fogo semelhantes a foguetes. Suas coruscações eram brilhantes, resplandecentes, e incessantes, e caíam densas como os flocos nas primeiras nevadas de dezembro”.1)


As estrelas deram razão ao profeta caindo como a figueira deixa cair seus figos verdes quando abalada por um vento forte:


“As estrelas não caíam como que desprendidas de várias árvores sacudidas, mas de uma só. As que apareciam no Oriente caíam para o Oriente. As que apareciam no Norte, caíam para o Norte; as que apareciam no Oeste, caíam para o Oeste. 


As que apareciam no Sul, (pois saí de minha residência e fiquei no parque), caíam no Sul, e não caíam como cai a fruta madura; longe disso; não voavam, mas eram como que lançadas, como o figo verde que, a princípio resiste para não deixar o galho, mas quando se desprende voa velozmente, em linha reta, e logo cai. E na imensidade que caíam, algumas cruzavam a trajetória de outras, como se fossem arrojadas com mais ou menos força”.2)


Uma senhora, D. Martina de la Rosa, que em 1935 contava 129 anos de idade e tinha 27 quando caíram as estrelas, residia na ocasião do fenômeno em Santana, Califórnia, com seu marido. O seu testemunho concernente aos chuveiros de estrelas, é o seguinte:


“Uma cena que nunca esquecerei é a da chuva de meteoros que iluminou esplendorosamente os céus, fez cem anos em novembro passado. Ninguém havia visto algo parecido antes, e não creio que desde então alguém tenha presenciado coisa semelhante. Lembro-me, de como meu esposo e eu nos acordamos sobressaltados pela intensa luz que inundou nossa habitação e que alumiava a terra como se fosse de dia. 


Não sabíamos o que estava acontecendo e ficamos possuídos de profunda inquietação! Quando saímos fora, os céus estavam iluminados com luzes estranhas. Muita gente orava, outras pessoas estavam em pé, tomadas de pasmo! Durante muitos dias todo o mundo falava sobre este fenômeno. Cinquenta anos mais tarde, os que haviam presenciado esse espetáculo ainda se lembravam dele perfeitamente!”3)

Com vivo terror o povo contemplou o chuveiro de meteoros como patente quadro da profecia. O cientista inglês Tomás Milner, ao escrever para os leitores europeus que estavam profundamente impressionados com o fenômeno, revelou: “Em muitas partes, a população, em massa, ficou aterrorizada, e os mais ilustrados ficaram possuídos de admiração, ao contemplarem tão vívido quadro da figura apocalíptica, as estrelas do céu, que caíam sobre a terra, do mesmo modo como uma figueira lança de si seus figos verdes, ao ser abalada por um forte vento... A notícia deste espetáculo celeste, ocorrido no continente ocidental, atraiu poderosamente a atenção, como se pode imaginar, dos astrônomos da Europa e de todo o mundo”.1)

Noutras partes da América fora também presenciado o grande sinal. No México, Canadá e Antilhas foi deparado. Na Europa foi observado “na Inglaterra, França, Suíça, Alemanha do Sul, Bélgica, nas províncias do Reno, e até em Berlim, Varsóvia, Riga, Petersburgo, Odessa, e também em Suczewa no Bucovina, onde segundo as observações do Dr. Rohrer caíam tão numerosas as estreias fugazes, que podiam comparar-se com uma verdadeira chuva de fogo”.2)

“A cena foi aparentemente mais brilhante na Ásia ocidental. O missionário veterano, Dr. H. H. Jessup, do Colégio Missionário Presbiteriano de Beyruth, descreve-a nos seus ‘Cinquenta e três anos na Síria’: ‘Na madrugada do dia 14 (nov.), às três horas, despertei de um profundo sono com a voz de um dos moços, gritando: ‘As estrelas estão caindo’: Os meteoros derramavam-se como uma chuva de fogo. Muitos deles eram grandes e variegados, e deixavam após si um comprido rasto de fogo. Um imenso meteoro caiu sobre o Líbano parecendo tão grande como a lua, e explodiu com um grande rumor, deixando uma coluna verde de luz no seu percurso. Foi debalde tentar contá-los, e a cena continuou até à alva, quando sua luz se obscureceu pelo rei do dia... Os maometanos, dos minaretes convocaram para a oração, e o povo comum estava aterrorizado”.3)

O memorável chuveiro de estrelas cobriu considerável parte do globo como um inolvidável testemunho do cumprimento da profecia. Foi uma solene advertência predita, destinada a sacudir a civilização espiritualmente indiferente e acomodada em seus prazeres carnais efêmeros.

Estes quatro sinais do sexto selo, precursores da Segunda Vinda de Cristo, não são os únicos preditos nas Sagradas Escrituras. Há inúmeros outros anunciados pelos profetas, apóstolos e pelo próprio Senhor Jesus. Citá-los todos seria aumentar este volume em muitas páginas. O leitor mesmo poderá ler alguns mais nos textos aqui citados.4)

"E O CÉU RETIROU-SE COMO UM LIVRO QUE SE ENROLA"

Este novo detalhe do sexto selo revela um acontecimento futuro. O verbo “retirou-se”, vem do grego — Apochorizomai — e encontra-se no nosso texto e nos Atos dos Apóstolos capítulo quinze, versículo

 


trinta e nove, onde é traduzido por — se apartaram. Mas, como é possível o céu retirar-se ou apartar-se? O que é realmente o céu? Ora, o céu é o imenso espaço que se estende em todas as direções do universo de Deus, povoado de miríades de mundos habitados. Por isso seria um tanto difícil aceitarmos literalmente as palavras do vidente. Pois, para onde se iria o céu imenso, se porventura se apartasse ou se retirasse? Vemos que a linguagem do profeta é altamente figurativa e como tal a devemos considerar.

A expressão de que o céu se retirou “como um livro que se enrola”, dá a entender que uma cortina ou um véu foi ou será removido para a contemplação de novas cenas relacionadas com o sexto selo. E na verdade ele descreve, a seguir, o que sucederá quando isto tomar lugar. Agora estamos vivendo exatamente entre os versículos 13 e 14 do capítulo seis do Apocalipse. Ao cumprir-se a última profecia referente à luta terrena, o céu retirar-se-á ou dará lugar a que se contemplem as cenas que darão fim ao estado atual da civilização.

“E TODOS OS MONTES E ILHAS FORAM REMOVIDOS DOS SEUS LUGARES"

Este quadro de destruição conduz-nos à sétima praga do capítulo dezesseis. Ao finalizar a obra de proclamação do evangelho, as sete pragas cairão sobre os que rejeitam a gratuita graça remidora de Deus.  Na sétima praga um terremoto e maremoto sem precedentes históricos, mundial, total, ocorrerão. Montes, ilhas, cidades, tudo, enfim, ruirá em escombros sobre a face de toda a terra. Será um acontecimento tremendo que encontrará multidões descuidadas e sem o devido preparo espiritual para enfrentá-lo.

O DESESPÊRO DE GRANDES E PEQUENOS

Afinal o céu retirar-se-á para que o pecador impenitente contemple a majestade do Todo-poderoso dirigindo-se à terra. Todas as classes estarão em franco desespero, exceto os verdadeiros cristãos. Os reis da terra ver-se-ão despojados da autoridade terrena que os intoxica e verão a majestade da supremacia de um Monarca que reina sobre todos eles, mas cujo poder jamais acataram. Os ricos que ajuntaram tesouros na terra e não no céu, verão sem valor algum os seus bens, e perder-se-ão porque confiaram nas suas riquezas e não em Deus.1) Os tribunos e os poderosos também se verão despojados de suas dignidades e autoridades de que agora gozam com prejuízo de seus deveres para com o céu. Servos e livres, conjuntamente com os grandes e poderosos serão surpreendidos naquele tremendo dia em que seus pecados e descréditos contra a lei de Deus os conduzirão a um fatal desenlace.

 


Debalde todas estas classes procurarão esconder-se da presença do supremo Juiz nas rochas e rogarão aos montes que os cubram da espantosa presença do Todo-poderoso. “Esconder-se-ia alguém em esconderijos, de modo que Eu não o veja? diz o Senhor; porventura não encho Eu os céus e a terra? diz o Senhor”.1)

Não poderão ocultar a culpabilidade de que são alvos nem jamais escapar à demorada vingança que por fim se manifestou. Terão de confessar ter chegado o “grande dia da Sua ira”, da qual foram notificados, mas dela zombaram. Não subsistirão ante a face do Rei do universo.2)


Esse é o conteúdo do livro A Verdade Sobre as Profecias do Apocalipse, de Araceli Melo - Confira aqui o índice Completo.