Jesus teria mesmo purificado a carne de porco?

Comer tudo do açougue

Muitos fundamentam suas crenças em ideias equivocadas baseadas em passagens isoladas das escrituras.
A pergunta no título desse artigo é um tanto enigmática, por que alguém chegaria a pensar que o ministério de Jesus envolveria uma questão alimentar de natureza tão intrínseca?

Selecionei 4 referências bíblicas que a grande maioria dos religiosos atuais utilizam como desculpa para ingerir alimentos imundos, comprove por si mesmo a verdade sobre esse assunto de forma sincera e sem preconceito.

O QUE CONTAMINA O HOMEM


Jesus afirmou em Mateus 15:11 “Não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem”.
Não tente acatar essas palavras ao pé da letra, por que o resultado poderá ser desastroso! Por que veneno entra pela boca e contamina sim o homem, e até mata.
Renomados líderes religiosas tendo como desculpa esse versículo, acreditam e ensinam a outros que Jesus aqui está anulando as leis alimentares dadas no antigo testamento. Todavia isso é um grande erro, basta que você leia o contexto da história e perceberá que em nenhum momento está havendo menção a qualquer alimento imundo.

Observe que toda a discussão gira em torno de “comer sem lavar as mãos”. Vale ressaltar que essa não era bem uma preocupação com a higiene, mas sim questão de purificação cerimonial.

Os fariseus seguiam estritas regras que eram irrelevantes para Cristo, o ‘lavar as mãos’ deles era quase como um culto onde se fazia com que todos notassem que eles estavam celebrando a santificação de si para poderem comer, e só assim o alimento não os contaminaria. Observar esse detalhe fará toda a diferença quando você for ler novamente esse texto.

DEUS MANDOU PEDRO COMER RÉPTEIS?


Em Atos 10, a partir do versículo 11 é registrado um episódio conhecido como ‘a visão do lençol’ onde o apóstolo Pedro recebeu a ordem de um anjo para comer todo tipo de “...quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu”. (vs 12) e que a isso ele respondeu: “De modo nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa alguma comum e imunda”. (vs 14)

Mais uma vez, basta analisar o contexto de toda a história, e facilmente perceberemos que nada ali dizia respeito a alimentos de qualquer natureza.
Tratava-se de uma visão simbólica onde Deus estava mostrando a Pedro que ele deveria pregar para toda e qualquer pessoa que quisesse ouvir, o que era vedado a um judeu. Isso pode ser constatado no vs 28.

Os próprios discípulos se escandalizaram com o fato dele ter entrando na casa de Cornélio, e só acataram seu procedimento depois que ele relatou todo conteúdo da visão.

Trazendo à tona mais uma vez a pergunta feita no começo, se Jesus tivesse mesmo purificado o porco Por que Pedro continuava sendo firme aos princípios de saúde judaicos mesmo tanto tempo depois da ressurreição de Cristo?

COMAM TUDO O QUE SE VENDE NO AÇOUGUE


Também não é correto aplicar esse texto literalmente, por que eu jamais comeria tudo o que se vende no açougue, e acredito que você também não.
Mais uma vez tente enxergar o tema geral que Paulo está tratando em 1 Coríntios 10, assim vai ficar claro que o assunto ali diz respeito ao consumo de “carnes sacrificadas aos ídolos” (vs 28) e envolvia o debate sobre se essas carnes poderiam ser ingeridas ou não, tendo em vista que após os sacrifícios elas eram comercializadas no mercado.  

Paulo aparenta ter uma abordagem liberal acerca disso, mas também recomendou que cada um tivesse cuidado ao demonstrar sua postura para com os fracos na fé, “Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus”. (vs 32)  mais uma vez em lugar nenhuma encontramos liberação para consumo do porco.

TUDO QUE DEUS CRIOU É BOM


Em I Timóteo 4:4,5 é dito: “... tudo que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graças, nada é recusável, porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificado”.

Uma leitura descuidada dessa passagem dá a entender que qualquer alimento imundo é facilmente purificado bastando que se faça uma oração antes de comer.




Preste atenção no contexto mais uma vez, e veja que nenhum tipo de animal é mencionado, a aplicação literal aqui pode dá margem a diversas interpretações absurdas.

Na verdade, tudo o que Deus criou é bom mesmo (Gn 1:21), mas é bom para o propósito por ele designado, por exemplo o urubu é bom para limpar carniça, o porco é bom para limpar a terra, mas não para consumo, se duvida veja o que está escrito em Isaías 65:4 e 66:17.

Carne de porco na Bíblia

Dando continuidade, agora irei acrescentar aqui uma importante contribuição do professor Bruno Ribeiro:

POR QUE DEUS DEU AS LEIS ALIMENTARES DE LEVÍTICOS 11?


A Bíblia oferece apenas uma única justificativa para as leis alimentares de Levíticos 11: "Não se contaminem com qualquer desses animais. Não se tornem impuros com eles nem deixem que eles os tornem impuros. Pois eu sou o Senhor Deus de vocês; consagrem-se e sejam santos, porque eu sou santo. Não se tornem impuros com qualquer animal que se move rente ao chão. Eu sou o Senhor que os tirou da terra do Egito para ser o seu Deus; por isso, sejam santos, porque eu sou santo" (Levítico 11.43-45).

Em suma, os animais proibidos são intrinsecamente imundos. Eles contaminam quem os come. Eles não eram ritualmente impuros, isto é, não era uma questão de 'ritual' que fazia com eles se tornassem impuros, como se mudando o ritual mudasse também a 'lei'. Eles eram imundos em si mesmos.
A única justificativa bíblica é que Israel não deveria se contaminar com esses animais porque deveriam ser como Deus é, isto é, Deus é santo, então Israel deveria ser santo! Israel deveria refletir a imagem e semelhança de Deus: assim como um é, o outro deveria ser também.

Em Dt 14.2 e 3, Deus oferece a MESMA justificativa: "vocês são povo consagrado ao Senhor, ao seu Deus. Dentre todos os povos da face da terra, o Senhor os escolheu para serem o seu tesouro pessoal.
Não comam nada que seja proibido".

A justificativa não está na saúde de Israel, nem na impureza ritual dos animais, mas na distinção do povo hebreu: era o povo consagrado ao Senhor, separado, tesouro pessoal do Altíssimo. Dentre TODOS os povos da terra, Israel era especial. Isso deveria refletir na alimentação.

Há uma pista sobre o porquê desses animais serem intrinsecamente imundos e como isso refletiria na 'separação' de Israel:

Levíticos 11 segue a mesma taxonomia de Gênesis 1. Neste último, Deus cria os animais em três categorias: (a) aquáticos; (b) da terra; (c) do mar.

A proibição de Levíticos segue esta mesma ordem, isto é, Deus proíbe os animais em grupo
(a) na água, os animais precisam ter escamas e barbatanas;
(b) na terra, os animais precisam ter unha fendida, casco dividido e ruminar;
(c) no ar, é listado os vários tipos de animais proibidos.

O interessante é que, na lista, Deus NÃO aceita meio termo, isto é, animais que tenham uma das características, mas não outra. O bicho deve ter 100% aquela caraterística na qual Deus estipulou. Exemplo: "O camelo, embora rumine, não tem casco fendido; considerem-no impuro. O coelho, embora rumine, não tem casco fendido; é impuro para vocês" (Lev 11.4,5).

Ou seja, ou o animal tem as características que Deus estipulou ou está proibido. Deus não aceita meio termo.

Mais exemplos:
"E o porco, embora tenha casco fendido e dividido em duas unhas, não rumina; considerem-no impuro" (v. 7).
"Tudo o que vive na água e não possui barbatanas e escamas será proibido para vocês" (v. 12).
"Todas as pequenas criaturas que enxameiam, que têm asas, mas que se movem pelo chão serão proibidas para vocês" (v. 20).

Gafanhoto como alimento

Na lista há alguns detalhes interessantes. Por exemplo, dentre as 'pequenas criaturas', Deus permite comer o gafanhoto. A justificativa? "vocês poderão comer aquelas que têm pernas articuladas para saltar no chão" (v. 22). O gafanhoto tem pernas articuladas. Ok! Tá liberado. Mas os outros animais que não tem esse 'projetil' estão proibidos. "Mas considerarão impuras todas as outras criaturas que enxameiam, que têm asas e que se movem pelo chão" (v. 21-23).

Parece que em todo esse 'projeto' há um simbolismo: Israel, a partir de sua alimentação, deveria simbolizar sua vocação, isto é, não se 'misturar' com as crenças e práticas impuras das nações circunvizinhas. Israel deveria refletir 100% a Imago Dei, o projeto de Deus para a criação e não ser uma mistura de características (como são os animais imundos).

O objetivo dessas leis parecem ter haver com uma espécie de disciplina espiritual: eles eram um lembrete constante à Israel que Deus queria separação. Afinal, Deus separou eles com um propósito especial: ser uma benção para TODOS os povos da terra (Gn 12.3). E esse propósito seria arruinado quando Israel não seguisse sua vocação, passando a fazer as MESMAS coisas imundas das nações ao redor.

As várias leis da Torah parece ter como alvo essa disciplina pedagógica de separação: "Não cruzem diferentes espécies de animais. Não plantem duas espécies de sementes na sua lavoura. Não usem roupas feitas com dois tipos de tecido" (Lev 19.19).

Em suma, não se misturam. Sejam santos, separados, como o Senhor Deus é. Através de Israel, Deus acabaria com a bagunça que se tornou a criação e restauraria o mundo. Esse era o propósito.

Apesar de Israel não cumprir seu papel, Deus o fez com o Messias, o Senhor Jesus Cristo. A criação voltou aos trilhos com o primeiro ser humano de verdade a imagem e semelhança de Deus (Rm 8.29, 30).
Pense nisso quando estiver diante de um alimento imundo!


Bruno Ribeiro é Professor na UFRN.

Referências

COPAN, Paul. O Deus da Bíblia é Cruel? Alethei: Lisboa, 2011.

WRIGHT. Cristopher. A missão do povo de Deus. São Paulo: Vida Nova, 2014.

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