33 QUAL A MELHOR TRADUÇÃO PARA JOÃO 5:39?

PEROLAS DA BIBLIA EXPLICADAS


Por que razão algumas traduções da Bíblia apresentam o verbo examinar em João 5:39 no modo indicativo e outras no imperativo? 


Seriam ambas as traduções igualmente corretas? Ou  seria uma melhor do que a outra? 


O problema com esta passagem encontra-se no seguinte: as segundas pessoas do plural do presente do indicativo e do imperativo são idênticas em grego, portanto, o original ερευνα∍τε (ereunate) pode ser traduzido por examinais ou examinai. Diante deste impasse, a única maneira segura de solucionar o problema é o estudo do contexto. 


Comentários


As traduções de Almeida Revista e Corrigida, e Atualizada no Brasil, bem como a Bíblia de Jerusalém apresentam examinais, mas a Atualizada e a Bíblia de Jerusalém trazem uma nota ao pé da página indicando ser possível também traduzir o verbo no modo imperativo examinai. 

Após a leitura da exposição de comentaristas e exegetas, que se seguem, você estará em condições de responder com mais autoridade sobre esta declaração de Cristo: 

"Examinai as Escrituras. Esta passagem pode ser traduzida ou como uma simples declaração. 'Vós examinais as Escrituras', ou como uma ordem 'Examinai as Escrituras'. O contexto parece indicar que estas palavras são mais bem compreendidas como uma franca declaração de Cristo aos judeus: Vós examinais... Era um antigo pensamento judeu que o conhecimento da lei asseguraria ao homem a vida eterna. Afirmam que Hillel, um rabino do 1º século AC, havia declarado: aquele que adquiriu para si as palavras da Torá, adquiriu para si mesmo a vida do mundo por vir. Jesus aqui faz uso desta crença, pare lembrar aos judeus, que as Escrituras nas quais eles pensavam encontrar a vida eterna eram os escritos que testificavam dele (veja P.P. 367). Esta passagem tem também sido usada efetivamente como uma injunção para estudar as Escrituras (veja Test. Sel., vol. II, pág. 121). Tivessem os judeus pesquisado as Escrituras com os olhos da fé, eles teriam sido preparados para reconhecer o Messias quando Ele esteve entre eles." 1

"Orígenes e Tertuliano advogam o uso imperativo aqui, portanto a nossa exortação familiar, 'Examinai as Escrituras', remonta pelo menos ao fim do segundo século. Este mesmo comentário, porém, opina que é melhor traduzir pelo indicativo, examinais, e interpreta: Vós examinais a Escritura por causa da vossa crença errada de que essa minuciosa pesquisa de palavras e sílabas nos livros sagrados vos assegure a vida no porvir. Estais errados. O valor das Escrituras é que testemunham de mim. E estais duplamente errados porque não vindes para Mim pessoalmente, quando eu vos concedo a oportunidade." 2 

"Todos os antigos exegetas, com uma única exceção (Ciril) lêem ερευνα∍τε como o imperativo, igualmente uma grande quantidade de outros. Mais recentemente um bom número considera esta forma como o indicativo. A questão é unicamente de contexto, desde que nenhuma outra evidência está disponível. Quando Robertson - 329 - concluiu 'provavelmente indicativo' ele o fez em bases gramaticais. (A citação de Robertson é esta: Formas como αυϖετε podem ser determinativa ou meramente o indicativo. Note a dificuldade de decidir se imperativa ou indicativa em formas como ερευνα∍τε (João 5:39), πιστευϖτε (João 14:1), ιϖοτε (Tiago 1:19). Mas nestes casos, exceto João 5:39, provavelmente temos o imperativo). 

"O imperativo se ajusta à situação total, o indicativo requer modificações, que não temos o direito de fazer... Jesus disse aos judeus: aqui está o meu testemunho - examinai-o..."3 

"... A forma do verbo pode ser indicativa ou imperativa; o contexto mostra que o indicativo foi a forma usada. Somente esta interpretação faz sentido com δοκει∼∼τε que segue, e com o contexto total."4 

"Examinais as Escrituras (39). Estudaram as Escrituras, pensando que a obediência mecânica aos preceitos da lei lhes daria o galardão da vida eterna. Não estavam errados em estudar as Escrituras na esperança de encontrar a vida eterna, mas sua interpretação delas estava totalmente errada, e não podiam encontrar o Cristo, que é o centro das Escrituras."5 

"Não há maneira (com base na gramática grega ou na estrutura das sentenças do versículo) de averiguar com certeza se a palavra examinais é a tradução correta aqui; pois no grego pode ser tanto o indicativo, o que significaria costumais examinar, indicando uma ação contínua, ou então pode ser o imperativo, o que seria 'examinai as Escrituras', como se fora uma ordem. Segundo a gramática grega pode ser uma coisa ou outra e há uma longa lista de nomes de intérpretes que têm defendido ambos os lados da questão. Porém, como quer que compreendamos a sentença, o sentido do versículo em nada é afetado. Parece mais provável que a tradução da Almeida Atualizada está correta aqui, ao traduzir a frase com o verbo no modo indicativo, o que descreve a febril atividade do estudo das Escrituras do AT, por parte do povo de Israel, e, mais especialmente ainda pelas suas autoridades religiosas, para quem o conhecimento das Escrituras era motivo de intensa ufania... 

"Os rabinos costumavam dizer: 'Aquele que adquire as palavras da lei, adquire para si mesmo a vida eterna'."6 

"Este verso deve ser traduzido não no modo imperativo, mas no indicativo. Assim: 'Examinais diligentemente as Escrituras.' É sobejamente conhecido que estas palavras são comumente traduzidas no imperativo; mas tal tradução não se ajusta de maneira alguma ao verso seguinte, e a força e intensidade das palavras também não pode ser percebida por esta versão." 



Conclusão


A estrutura da frase em grego nos leva a concluir que a única tradução correta é examinais. Se fosse imperativo, a oração subordinada seria: para que tenhais ou a fim de terdes vida eterna. 

O plano da salvação apresentado na Bíblia jamais admitiria que Cristo ensinasse que a vida eterna possa ser adquirida pelo diligente estudo das Escrituras. 


Referências: 


SDA Bible Commentary, vol. V, pág. 955. 

O Evangelho de João, vol. II, pág. 171, William Carey Taylor. 

The Interpretation of St. John's Gospel, pág. 413. R. C. H. Lenski. 

The Gospel According to St. John, pág. 222. C. K. Barrett. 

O Novo Comentário da Bíblia, pág. 1075. Edições Vida Nova. Editado em Português. 

O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, vol. II, págs. 350-351, Russell Norman Champlin. 

Clarke's Commentary, vol. V, pág. 554.