3 QUALIFICAÇÕES PARA A CONQUISTA DE ALMAS EM RELAÇÃO AO HOMEM

Conquistador de almas


Irmãos, por certo se recordam de que em minha última preleção falei das qualificações, em relação a Deus, que podem capacitar o homem para ser um conquistador de almas. 


Nessa ocasião procurei descrever-lhes o tipo de homem que conta com maior probabilidade de ser empregado pelo Senhor para esse trabalho. Desta vez me proponho a desenvolver o tema seguinte: Características do conquistador de almas em relação ao homem. 


Quase poderia mencionar os mesmos pontos tratados anteriormente como sendo os que apelam mais para o homem, pois creio que as qualidades que se recomendam à consideração de Deus como as mais apropriadas para o fim visado por Ele são suscetíveis também de obter a aprovação daquele que constitui o objeto da ação de conquista, isto é, o ser humano, a alma do homem.


Tem havido no mundo muitos homens de modo nenhum aptos para este labor. Deixem-me dizer, primeiramente, que um ignorante das coisas de Deus não será grande conquistador de almas. O homem que só sabe que é pecador e que Cristo é Salvador, pode ser útil a outros que se acham na mesma condição dele, e sua obrigação é fazer o melhor uso possível dos seus escassos conhecimentos. 


Mas, de modo geral, eu não esperaria que esse homem fosse utilizado muito amplamente no serviço de Deus. Se tivesse desfrutado mais ampla e mais profunda experiência das coisas de Deus, se fosse, no sentido mais elevado, um homem instruído, porque ensinado por Deus, poderia usar o seu conhecimento para o bem dos outros. 


Sendo, porém, em grande medida, ignorante das coisas de Deus, não vejo como possa fazer com que outros as conheçam. A verdade é que é preciso havei alguma luz na candeia que há de iluminar a escuridão que envolve os homens, e é preciso que o homem que vai ser mestre dos seus semelhantes tenha algum conhecimento. 


O homem totalmente ignorante, ou quase isso, por melhor que faça será inapelavelmente deixado para trás na corrida dos grandes conquistadores de almas. Nem classificação consegue. Portanto, irmãos, roguemos a Deus que nos capacite em Sua verdade, para que possamos também ensinar outros.


Tomando como coisa certa que vocês não pertencem à classe ignorante à qual estou aludindo, e supondo que estão bem instruídos no melhor tipo de sabedoria, que qualidades deverão ter, com vista aos homens, se é que pretendem ganhá-los para o Senhor? Devo dizer que é preciso haver em nós sinceridade evidente. Não apenas sinceridade, mas uma sinceridade tal, que se manifeste prontamente a todo aquele que verdadeiramente a busque. 


É preciso ficar bem claro para os seus ouvintes que vocês crêem firmemente nas verdades que proclamam. De outra forma, nunca os levarão a crer nelas. A menos que, fora de toda dúvida, se convençam de que vocês crêem nessas verdades, não haverá eficácia nem poder nenhum em sua pregação. Que não paire sequer a suspeita de que proclamam a outros aquilo que vocês mesmos não crêem plenamente. Se acontecer isso, o seu trabalho será feito em vão.


Quem os ouve deve poder notar que estão desempenhando um dos mais nobres ofícios e realizando uma das funções mais sagradas de quantas foram confiadas aos homens. Se fazem débil avaliação do Evangelho que pretendem anunciar, é impossível que os seus ouvintes sejam grandemente influenciados por sua pregação. 


Outro dia ouvi perguntarem acerca de certo ministro: "Pregou um bom sermão? " A resposta foi : "Tudo que disse foi muito bom". "E não tirou proveito do sermão? " "Nem um pouco." "Mas não foi um bom sermão?" Veio de novo a primeira resposta: "Tudo que disse foi muito bom". "Que quer dizer? Por que não tirou proveito do sermão se tudo que o pregador disse foi muito bom? " 


Esta foi a explicação dada pelo ouvinte: "Não tirei proveito da prédica porque não acreditei no homem que a fez. Não passava de um ator desempenhando o seu papel. Não pude crer que ele estivesse sentindo o que pregava, nem que se preocupasse conosco, se o sentíamos e criamos ou não".


Quando as coisas se passam deste jeito, não se pode esperar que os ouvintes tirem proveito do sermão, não importa o que o pregador diga. Talvez imaginem que as verdades pregadas são preciosas, talvez resolvam servir-se das provisões seja quem for que ponha o prato diante deles. É inútil, porém. Não conseguem. 


Não podem separar o pregador insensível da mensagem que prega com tanta indiferença. Tão logo um homem deixe que seu trabalho se torne mera formalidade ou rotina, este decai nivelando-se a uma representação teatral em que o pregador age como simples ator, Desempenham um papel, apenas, como numa peça de teatro. Não fala do fundo da alma, como um enviado de Deus.


Rogo-lhes, irmãos: falem de coração, ou não falem nada. Se podem ficar calados, fiquem; mas se acham que devem falar em nome de Deus, façam-no com inteira sinceridade. Seria melhor que voltassem a seus negócios, dedicando-se a pesar manteiga, a vender carretéis de linha ou a fazer qualquer coisa, desistindo de ser ministros do Evangelho, a não ser que Deus os tenha chamado para essa obra. 


Creio que a coisa mais condenável que um homem pode fazer é pregar o Evangelho como simples ator, transformando o culto a Deus em uma espécie de representação teatral. Tal caricatura é mais digna do diabo que de Deus. A verdade divina é preciosa demais para ser feita objeto de tamanho zombaria. 


Estejam certos de que, quando as pessoas suspeitarem da sua sinceridade uma vez que seja, somente voltarão a ouvi-los com desagrado, e não haverá nenhuma probabilidade de que creiam em sua mensagem se lhes derem motivo para pensai que nem vocês crêem nela.


Espero não estar errado ao supor que nós todos somos inteiramente sinceros no serviço que prestamos a nosso Mestre. Deste modo, irei adiante passando a considerar aquilo que me parece ser a próxima qualificação em relação ao homem, para a conquista de almas, a saber, fervor evidente. 


O mandamento para quem quer ser um verdadeiro servo do Senhor Jesus Custo é: "Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento". Se um homem há de ser conquistador de almas, deve existir nele intensidade emocional bem como sinceridade de coração. 


É possível pregar as mais solenes admoestações e as mais terríveis ameaças de maneira tão apática e negligente que ninguém será afetado em nada por elas. É possível recitar as mais afetuosas exortações com tão pouco sentimento que ninguém se sentirá movido ao amor ou ao temor.


Creio, irmãos, que na conquista de almas esta questão de fervor pesa mais, talvez, do que qualquer outra coisa. Tenho visto e ouvido alguns que eram fracos na pregação e que, entretanto, levaram muitas almas ao Salvador pelo fervor com que entregavam sua mensagem. 


Não havia positivamente nada em seus sermões (até que o vendedor de secos e molhados usou-os para embrulhar manteiga). Contudo, aqueles péssimos sermões levaram muitos a Cristo. Não era tanto o que os pregadores diziam, mas como diziam, que transmitia convicção ao coração dos ouvintes. 


A mais singela verdade atingia em cheio o alvo pela intensidade da proclamação e pela sensibilidade emocional do homem de quem provinha, de tal modo que produzia efeitos surpreendentes.


Se algum dos cavalheiros aqui presentes me desse uma bala de canhão pesando uns trinta ou cinqüenta quilos, e me deixasse fazê-la rolar pela sala, e outro me confiasse uma bala de fuzil, e o respectivo fuzil, sei qual dos dois artefatos seria mais eficiente. Ninguém despreze as balas pequenas, pois muitas vezes é uma delas que mata o pecado, e também o pecador. 


Portanto, irmãos, não é a grandiosidade das suas palavras, mas o poder com que as proclamam que decidirá do resultado da pregação. Ouvi falar de um navio bombardeado pelo canhão de um forte, que não sofreu nenhum dano até que o comandante mandou disparar com balas aquecidas até ficarem como feno em brasa. 


Com isso, o navio foi parar no fundo do mar em três minutos. É isso que devem fazei com os seus sermões: deixá-los como brasas vivas. Não faz mal que os homens digam que vocês são demasiado entusiastas, ou mesmo fanáticos. Disparem-lhes balas vermelhas de calor. Não há nada que se compare a esse recurso para o fim que têm em vista. Aos domingos não saímos para atirar bolas de neve, mas, sina, balas de fogo; devemos lançar granadas nas fileiras inimigas.


Quanto fervor merece o nosso temo! Cabe-nos falar de um Salvador fervoroso, de um céu cheio de calor e de um inferno ardente. Quão fervorosos havemos de ser, se nos lembrarmos de que em nosso trabalho nos cabe lidar com almas imortais, com o pecado cujos efeitos são eternos, com o perdão infinito, com terrores e alegrias que durarão pelos séculos dos séculos! 


O homem que trata destas coisas com frieza, terá na verdade coração? Poder-se-ia encontrar em seu peito um coração, ainda com a ajuda de um microscópio? Caso fosse dissecado, tudo que se poderia achar nele seria um pedregulho, um coração de pedra, ou alguma outra substância igualmente incapaz de emocionar-se. Confio em que Deus, ao dar-nos corações de carne, deu-nos corações que podem pulsar também por outros.


Dando como certas essas coisas todas, devo dizer em seguida que o homem que pretende ser conquistador de almas para Cristo deve ter evidente amor por seus ouvintes. Não posso imaginar um homem como conquistador de almas, se passa grande parte do tempo a maltratar os irmãos da igreja, e a expressar-se como se o simples olhar para eles lhe fosse aborrecível. Tais homens só parecem estar contentes quando derramam taças de ira sobre os que têm a infelicidade de ouvi-los. 


Soube de um irmão que pregou sobre o texto: "Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores", e começou o sermão assim: “Não digo que aquele homem veio ao local em que nos achamos, mas sei de outro homem que veio a este lugar, e caiu nas mãos de ladrões". Bem se pode imaginar o resultado de tal chuva de ácido sulfúrico. 


Sei de um que pregou sobre a passagem que diz: "E Arão manteve silêncio". Alguém que o ouvira disse que a diferença entre o pregador e Arão era que Arão manteve silêncio, e o pregador não; antes, pelo contrário, despejara furor sobre o povo, quanto pôde.

É preciso que tenham real interesse pelo bem-estar das pessoas, se desejam exercer influência sobre elas. Ora, até os cães e os gatos gostam das pessoas que gostam deles, e os seres humanos são nisto bem parecidos com esses animais irracionais. O povo logo percebe quando sobe ao púlpito um homem frio, um desses que parecem ter sido esculpidos em mármore. 

Temos tido um ou dois irmãos desse tipo, e eles nunca obtiveram sucesso em parte alguma. Quando procurei saber a causa do seu fracasso, em cada caso a resposta foi : "É um bom homem, um homem boníssimo; prega bem, muito bem mesmo, mas ainda não nos entrosamos com ele". Perguntei: "Por que não gostam dele?" A resposta foi : "Ninguém jamais gostou dele". É briguento?" “Não, meu caro; preferiria que ele armasse um tumulto!" Tento captar a falha deles, pois me interesso muito por saber essas coisas, e finalmente alguém me diz: "Bem, senhor, não creio que ele tenha coração. Pelo menos, não prega nem age como se o tivesse".

É muito triste quando o fracasso de algum ministério é causado pela falta de coração. O ministro deveria ter um coração imenso, como por exemplo Portsmouth ou Plymouth; um grande porto marítimo, de modo que todos os membros da sua congregação pudessem vir ali, lançar âncoras e sentir-se protegidos por grandes rochedos, ao abrigo dos vendavais. Não notaram que os homens vencem no ministério e conquistam almas para Cristo em proporção à grandeza do seu coração? Pensem, por exemplo, no Dr. Brook. Era corpulento, e todo ele cheio de compaixão. E de que serve um ministro sem compaixão? Não digo que devam aspirar a ser corpulentos para terem grande coração. Mas digo que devem ter grande coração, se pretendem ganhar almas para Cisto. É preciso que vocês sejam "Corações Grandes", se é que vão conduzir muitos peregrinos à "Cidade Celestial" (da alegoria de Bunyan). 

Conheci alguns homens desenxabidos que se diziam perfeitamente santos, e quase chego a crer que eles não poderiam mesmo pecar, pois eram como velhos pedaços de couro, nada havendo neles que fosse capaz de pecar. Uma vez encontrei um desses irmãos "perfeitos". Era exatamente como um pedaço de alga marinha. Não havia nele nenhuma humanidade. Gosto de ver no homem traços humanos desta ou daquela índole, e as pessoas em geral gostam disso também. Dão-se melhor com o homem que possui algo da natureza humana. A natureza humana é horrível, em alguns aspectos. Mas quando o Senhor Jesus Cristo a assumiu e lhe acrescentou Sua natureza divina, transformou-a numa coisa grandiosa, de maneira que a natureza humana, quando está unida ao Senhor Jesus Cristo, é algo nobre. Esses homens que se conservam para si mesmos, como ermitães, e levam vida de pretensa santidade e de auto-absorção, não têm possibilidade de exercer influência no mundo, nem de fazer benefício aos seus semelhantes. 

É preciso amar as pessoas e misturar-se com elas, se é que se pretende ser-lhes de alguma utilidade. Há ministros realmente melhores do que outros e que, entretanto, não fazem tanto bem como os que são mais humanos, que vão e se assentam com as pessoas e, tanto quanto possível, se sentem em casa ao lado delas. Vocês sabem, irmãos, que lhes é possível darem a aparência de bons demais, de modo que levem os outros a julgá-los seres transcendentais, mais aptos para pregar a anjos, querubins e serafins do que aos decaídos filhos de Adão. Sejam apenas seres humanos entre seres humanos. Mantenham-se livres de todos os pecados e vícios, mas liguem-se aos seus semelhantes em perfeito amor e solidariedade, dispostos a fazer tudo que possam pala levá-los a Cristo, de modo que lhes seja possível dizer como o apóstolo Paulo: ". . .sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais. E fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivera debaixo da lei, para ganhar os que estão debaixo da lei. Para os que estão sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns".

Outra qualidade, com relação ao homem, do conquistador de almas pala Deus é desprendimento evidente. Um homem deixa de levar almas a Cristo tão logo se torna conhecido como egoísta. O egoísmo parece fazer parte integrante de certas pessoas; estas o manifestam em casa à mesa, na casa de Deus, e em toda parte. Quando tais indivíduos passam a participar da liderança de uma igreja e de seu rebanho, seu egoísmo aparece logo. Pretendem obter tudo que puderem, embora no ministério evangélico nem sempre consigam muito. Irmãos, espero que cada um de vocês esteja disposto a dizer: "Ficarei satisfeito se me derem roupa e comida, e nada mais".

Se se empenharem em pôr de lado toda preocupação com dinheiro, por vezes o dinheiro voltará em dobro às suas mãos. Mas se procurarem agarrar tudo, provavelmente não lhes virá nada. Quem é egoísta na questão de salário, egoísta será em tudo mais: não quererá que o seu rebanho conheça pregadores melhores do que ele; e não suportará ouvir falar de alguma boa realização que esteja sendo levada a efeito em outro lugar que não seja a sua igreja. Se noutro lugar ocorrer um avivamento, com resultantes conversões, dirá com despeito: "Sim, há muitos convertidos, mas de que tipo? Onde estarão daqui a alguns meses?" Dará mais valor a uma conversão por ano em sua igreja, que a uma centena de conversões ocorridas de uma vez na do vizinho.

Se o povo de sua igreja vir em vocês essa classe de egoísmo, perderão a autoridade sobre ele. Se resolverem tornar-se grandes vultos, empurrando para longe a quem quer que seja, vocês irão às traças, tão certo como é certo estarem vivos. Caro irmão, quem é você, para que as pessoas devam inclinar-se para lhe cultuar e pensem que não há no mundo ninguém que se lhe iguale? É bom que saiba que quanto menos pensar de si mesmo, mais consideração os outros terão por você; e quanto mais pensar de si, menos o considerarão. Se algum dos meus ouvintes aqui tem algum vestígio de egoísmo, rogo que se livre dele já, Do contrário, jamais será instrumento apropriado para a conquista de almas para o Senhor Jesus Cristo.

Estou certo de que outra coisa necessária para ganhar almas é santidade de caráter. De nada vale falar nos domingos da "vida superior", e depois viver o resto da semana a vida inferior. O ministro cristão deve ser muito cuidadoso para, não somente estar livre da culpa de más ações, mas também não levar os mais fracos do rebanho a caírem. Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm. Nunca devemos fazer o que julgamos errado, mas também devemos estar dispostos a abster-nos de coisas que podem não ser más em si, mas que podem dar ocasião a outros tropeçarem. Quando o povo vê que não somente pregamos sobre a santidade, mas que nós mesmos somos santos, sentir-se-á atraído para as coisas santas, tanto por nosso caráter como por nossa pregação.

Também acho que, se devemos ser conquistadores de almas, devemos manifestar seriedade nas maneiras. Alguns irmãos são sérios por natureza. 

Faz algum tempo, alguém ouviu a conversa de dois passageiros num trem. Um deles dizia : "Pois bem, creio que a igreja de Roma tem grande poder, e lhe é possível ter sucesso com as pessoas por causa da evidente santidade dos seus ministros. O cardeal Fulano, por exemplo, está que é só esqueleto. Graças aos seus prolongados jejuns e orações, quase ficou reduzido a pele e osso. Toda vez que o ouço falar, sinto logo a força da santidade que o caracteriza. Agora, olhe para Spurgeon. Ele come e bebe como qualquer mortal comum. Eu não daria nem um centavo para ouvi-lo pregar". Seu amigo ouviu-o pacientemente, e depois disse com muita serenidade; "Nunca lhe ocorreu que a aparência do cardeal deva ser explicada pelo fato de seu fígado estar funcionando mal? Não acredito que seja a graça divina que o faz magro como é. Creio que é o seu fígado". 

Assim, há irmãos que naturalmente são de temperamento melancólico, mostrando-se sempre muito sérios. Entretanto, não há neles nem sinal da graça de Deus; há apenas sintomas de fígado doente. Não riem nunca. Acham que isso seria iniqüidade. Mas vão pelo mundo fora aumentando o sofrimento da espécie humana, sofrimento já bastante horrível sem o acréscimo da sua desnecessária contribuição. Gente assim evidentemente imagina que foi predestinada a lançar baldes de água fria sobre toda a felicidade e alegrias humanas. Portanto, caros irmãos, se algum de vocês é muito sério, nem sempre deverá atribuí-lo à graça divina, pois bem pode ser devido às condições do seu fígado.

Contudo, a maioria de nós pende muito mais para o riso que faz bem como um bom remédio. E todos necessitamos de todo o bom humor que pudermos ter, se queremos consolar e reanimar os abatidos. Mas não levaremos muitas almas a Cristo, se estivermos cheios daquela frivolidade característica de certas pessoas. O povo dirá: "É tudo uma graça. Vejam só como esses jovens brincam com a religião. Uma coisa é ouvi-los do púlpito; outra muito diferente é ouvi-los quando estão à mesa para comer". 

Ouvir falar de um moribundo que mandou chamar o pastor. Quando este chegou, o moribundo lhe disse: "Lembra-se de um moço que uma noite, anos atrás, acompanhou-o quando você saiu para pregar?" O pastor respondeu que não. "Pois eu me lembro muito bem", replicou o outro. "Não se recorda de haver pregado em tal povoado, sobre tal texto, e de que depois do culto um rapaz foi com você para casa?" "Ah, sim, lembro-me bem disso! " "Pois bem, eu sou aquele jovem. Lembro-me do seu sermão. Jamais o esquecerei." "Graças a Deus por isso", disse o pregador. "Não", respondeu o moribundo, "Você não agradecerá a Deus quando escutar o que vou dizer. Fomos juntos àquela vila, e você ia calado porque pensava no sermão que ia pregar, impressionou-me muito enquanto pregava, e fui levado a pensar em dar o meu coração a Cristo. Decidi falar-lhe da minha alma quando voltássemos para casa. Mas assim que saímos, você disse uma piada, e durante o caminho todo foi pilheriando acerca de coisas serias, de modo que não pude falar-lhe nada do que sentia. Aquilo me fez perder por completo o gosto pela religião e por todos os que a professam. Agora, estou prestes a sofrer a condenação e, tão certo como é certo que você está vivo, o meu sangue será requerido das suas mios," E assim deixou este mundo. 

Ninguém haveria de gostar que lhe acontecesse uma coisa dessas, Portanto, irmãos, tenham o cuidado de não lhe dar ocasião. Em toda a nossa vida deve predominar a seriedade. Doutro modo, não nos cabe esperar conduzir outros a Custo.

Finalmente, se havemos de ser empregados por Deus como conquistadores de almas, é preciso existir em nossos corações muitíssima ternura. Aprecio o homem que revela até certa medida uma santa ousadia, mas sem ser duro e insolente. 

Um jovem sobe ao púlpito, pede desculpas por atrever-se a pregar, e espera que o povo o tolere. Não sabe se tem algo particular para dizer. Se o Senhor o tivesse enviado, teria alguma mensagem para os ouvintes, mas se acha tão jovem e inexperiente que não pode falar com segurança de coisa alguma. Falar desse jeito não salva sequer um ratinho, quanto mais uma alma imortal. Se o Senhor os enviou a pregar o Evangelho, por que terão que pedir desculpas? Os embaixadores não ficam a excusar-se quando vão para alguma metrópole estrangeira. Sabem que o seu monarca os enviou, e transmite sua mensagem com toda a autoridade do seu rei e sua pátria. 

Tampouco vale a pena chamar a atenção para a sua mocidade. Vocês são apenas como uma trombeta de chifre de carneiro, e não importa se foram arrancados da cabeça do carneiro ontem, ou há vinte e cinco anos. Se Deus faz soar estas trombetas, haverá bastante ruído do som emitido, e mais alguma coisa além do ruído, mas se não for Ele que toque, inútil será o sopro dado.

Assim, quando pregarem, falem com coragem, mas também com ternura. E se for preciso dizer algo desagradável, tenham o cuidado de colocá-lo da maneira mais amável possível. Alguns dos nossos irmãos tinham certa mensagem para dar a um membro da igreja, mas agiram tão grosseiramente que ele se sentiu gravemente ofendido. Quando lhe falei sobre o mesmo assunto, ele disse: "Não me sentiria mal se o senhor me tivesse falado disto. Seu jeito para apresentar uma verdade desagradável é tal que ninguém poderia ofender-se, por menos que gostasse da mensagem que lhe desse". "Bem", disse eu, "coloquei a questão em termos tão fortes quanto os outros irmãos". "Certo que sim", replicou, "mas eles o disseram de modo tão áspero que não pude agüentar. Pois olhe, preferiria ser demolido pelo senhor a ser aplaudido por aquela gente! Há maneiras de fazer essas coisas pelas quais a pessoa repreendida mostra-se na verdade agradecida. É possível lançar uma pessoa escada abaixo de modo que, em vez de ofendê-la, lhe agrade. Por outro lado, outra pessoa pode abrir a porta de maneira tão ofensiva a alguém, que este não quererá entrar enquanto ela não se afaste dali. Ora, se devo dizer a alguém certas verdades intragáveis que precisa saber para a salvação da sua alma, tenho a dura obrigação de ser leal com ele. Mas procurarei transmitir-lhe a mensagem de modo que não se ofenda. Depois de tudo, se se ofender, que se ofenda. Mas o provável é que não aconteça isso, e, sim, que minhas palavras despertem sua consciência.

Conheço alguns irmãos que pregam como se fossem pugilistas. Quando estão no púlpito fazem-me lembrar do irlandês na Feira de Donnybrook (feira anual célebre pelas desordens ali ocorridas). Durante todo o sermão parecem estar desafiando alguém a subir ao púlpito para lutar com eles, e nunca estio satisfeitos, a não ser quando estão atacando a um ou a outro. Há um homem que costuma pregar ao ar livre em Clapham Common (área de lazer de Clapham, subúrbio de Londres), e o faz de modo tão belicoso que os ímpios, ao serem atacados por ele, não podem suportá-lo, havendo por isso muitas brigas e confusões. Há um estilo de pregar que antagoniza os ouvintes. Se alguns homens tivessem permissão de pregar no céu, temo que provocariam contenda entre os anjos.

Conheço vários ministros desse tipo. Há um que, tenho certeza, esteve em uma dúzia de igrejas, em sua curta vida ministerial. Pode-se dizer onde esteve pela ruína que deixou em cada lugar. Encontra as igrejas sempre em mau estado e se põe logo a purificá-las, isto é, a destruí-las. Como regra geral, a primeira coisa que acontece é que se vai embora o diácono mais proeminente. Depois o seguem as famílias mais destacadas e, em pouco tempo, o homem purificou de tal modo a igreja que os poucos restantes não lhe podem dar o sustento pastoral. Daí vai para outro lugar e recomeça o processo de destruição, É uma espécie de especialista em pôr a pique navios espirituais, e só está contente quando está abrindo rombos no casco de algum bom navio. Afirma que o barco está podre. Portanto, fura que fura, até o barco ir ao fundo. Então se retira, e sobe a bordo doutro navio que logo afunda do mesmo modo. Acha que foi chamado para a obra de separar o precioso do vil, e a confusão que apronta é que é "preciosamente" vil. Não tenho motivo nenhum para crer que o que ocorre a esse irmão tenha algo que ver com disfunções do fígado. É mais provável que seja o seu coração que funciona mal. O certo é que padece de alguma enfermidade que sempre o põe de mau humor. É perigoso tê-lo como convidado por mais de três dias, porque nesse tempo brigará com o homem mais pacifico do mundo. Não posso mais recomendá-lo ao pastorado. Que ache ele mesmo outro lugar de trabalho, pois creio que, vá ele aonde for, o lugar ficará como o solo em que pisou o cavalo do tártaro: ali não crescerá mais erva alguma.

Irmãos, se algum de vocês tem um pouco que seja deste espírito intratável e amargo, procure livrar-se logo dele. Espero que lhe suceda o que se conta na lenda de Maomé. "Em todo ser humano", diz a estória, "há duas gotas negras de pecado. Nem o próprio profeta estava livre da porção comum do mal. Mas um anjo foi mandado para tornar e espremer seu colação, extraindo as duas gotas negras de pecado." Tratem de espremer como puderem essas gotas negras, enquanto estão no seminário. Se têm malícia, ou má vontade, ou mau gênio, supliquem ao Senhor que o extirpe do seu coração antes do fim do curso. Não entrem nas igrejas para brigar como outros têm feito.

"Todavia", dirá um irmão, "não vou deixar que me pisem. Hei de pegar o touro à unha." Você será um grande tolo se o fizer. Jamais achei que fui chamado para fazer uma coisa dessas. Por que não deixar o touro em paz, que vá para onde quiser? É bem provável que o touro o mande para os ares, se for mexer com os chifres dele. "Contudo", dirá outro, "é preciso acertar as coisas." Sim, mas o melhor meio de acertar as coisas é não torná-las mais erradas do que estão. Ninguém vai pensar em introduzir um touro furioso numa loja de porcelanas para limpá-la. Como também ninguém pode, mediante uma exibição de mau gênio, acertar o que há de errado em nossas igrejas. Tenham o cuidado de sempre falar a verdade com amor, principalmente quando estiverem atacando o pecado,

Creio, irmãos, que a conquista de almas para Cristo é feita por homens que têm o caráter que venho descrevendo, E sobretudo será assim quando eles estiverem rodeados de gente dotada de caráter semelhante a esse. É preciso que a própria atmosfera em que vivem e trabalham esteja impregnada deste espírito, antes de poderem esperar honestamente as mais completas e ricas bênçãos. Portanto, sejam vocês e os seus rebanhos tudo quanto retratei, por amor do Senhor Jesus Cristo! Amém.